Delicada Ivanira

Ela entrou na classe usando roupas sóbrias, quase impessoais, de cores suaves, sondando cada um de nós com seus olhos castanhos, sempre iluminados. Era pequena, frágil, quebradiça, as unhas bem-feitas; e quando se apresentou, ouvimos a voz branda, leve, cuja melodia compôs, somando-se ao sorriso e às outras características, a figura daquela que, com o passar dos meses, tornou-se para mim a personificação da literatura – e com tal exagero, com tal permanência, que até hoje, passados mais de trinta anos, não vivo um único dia sem ler, escrever ou pensar, e ao mesmo tempo recordar-me dela, seqüestrando-a daquela zona cinzenta, reservada pela memória a tudo que merece ser esquecido, ou seja, a maioria dos fatos e das pessoas. Conservo-a ao meu lado, lendo comigo, falando-me sobre os escritores que me ensinou a amar, ou simplesmente acompanhando-me como uma sombra inspiradora, reconfortante.

Em meu caderno de capa verde, uma brochura nova que resistia a ser aberta, anotei a primeira aula, quando ela nos explicou a diferença entre conotação e denotação. E entre esses dois eixos, no espaço de infinitas possibilidades que se abre, cada vez maior, ela fez surgir, afastando de maneira crescente os vetores, a mais amada das ciências, a mais prazerosa das artes, e também a mais aflitiva: a literatura. Aula após aula, sem que suspeitássemos, e apesar do seu jeito terno, ela obrigava Zeus a possuir novamente Mnemósine, mas para gerar apenas Calíope, Euterpe, Melpômene e Tália. E o resultado foi esta intoxicação para a qual recuso todas as possíveis curas, foi esta biblioteca que não pára de crescer, estes livros que se amontoam pelo apartamento, esta pilha que se avoluma, vigiando-me, sobre o criado-mudo, esta compulsão que me faz saltar de um universo a outro, mas sempre em busca de mim mesmo, encontrando-me retalhado pelos mais diferentes livros, perguntando-me, atônito, como uma parte de mim pode estar entre os judeus trágicos de Bernard Malamud, outra no torpor aconchegante que Conceição destila pouco antes da Missa do Galo, outra no soldado morto – um “higrômetro singular” – e mumificado sob uma quixabeira, nas cercanias de Canudos, e também com Diego de Zama, exilado num país latino-americano incerto, com Lorde Jim, lutando silenciosa e desesperadamente para encontrar a coragem, e na fera escondida na selva de Henry James, e na pergunta encravada na imodéstia bestial de Damázio, dos Siqueiras: “fasmisgerado?… faz-me-gerado?… falmisgerado?… familhas-gerado?”.

A cada nova página, descubro-me, graças a ela, para um encontro com parte do meu íntimo: fracionado, decepado, cindido, e ainda assim lúcido, vasculhando os livros infinitos e lembrando-me dessa mulher doce, algo enigmática, caminhando silente e pensativa sob as arcadas do Colégio Romeiro Pereira, exatamente como imagino que Shikibu Murasaki deveria caminhar, envolta nos seus múltiplos quimonos, na corte do Japão do século XI, sobraçando os originais do “Genji Monogatari”.

Como a vida pôde me separar de Ivanira Dadalt? De alguém cuja influência se encontra, sob diferentes aspectos, acima até mesmo do que minha própria família me ensinou? Mas talvez seja exatamente esse o papel dos verdadeiros mestres. Eles inoculam em nós idéias de beleza, de liberdade, de poesia, e depois se afastam, pois sabem que esses princípios vingarão apenas se o terreno for fértil, conscientes de que, em seu limitado poder, fizeram o melhor.

Imagino a delicada Ivanira sentada entre seus livros, talvez folheando um daqueles volumezinhos de capa cinza, da Coleção Nossos Clássicos, que ela algumas vezes me emprestou. Talvez releia um romance de Camilo ou, quem sabe, um poema de Cesário Verde. Ela fecha o livro, ergue os olhos, levanta-se, aproxima-se da janela e conclui, sem tristeza, que nossa existência é semelhante ao soneto de Camões: passamos a vida na esperança de um só dia – servindo Labão anos a fio, desejando ardentemente Raquel, mas recebendo apenas Lia.


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  1. 3 novembro, 2007 @ 12:58 Duto Sperry

    Caro Rodrigo<BR/><BR/>Por um acaso do destino não nos encontramos(se é que não encontramos) em Jundiaí..<BR/>Ou talvez pela memória, que só me ajuda quando ela quer.<BR/><BR/>Eu vi esta mesma Ivanira, esta mesma cena, com esta mesma percepção. GEVA, 1972.<BR/>Estava procurando na internet uma maneira de encontrá-la quando achei a referencia a seu texto. Bingo! Alem de saber de D.Ivanira,

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  2. 5 outubro, 2011 @ 17:52 Antonio Anielo Scarapicchia

    Em 1969, estudando no GEVA, ganhei um livro,Máscara de ferro de D. Ivanira. De vez em quando leio a dedicatória dela e me emociono muito.Era uma Professora nota 10.Sempre me incentivou a melhorar.

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