Hermann Broch

A Editorial Igitur acaba de lançar, na Espanha, uma edição das poesias completas de Hermann Broch. À parte o fato de estarmos sempre atrasados – e não só em relação ao mercado editorial de língua hispânica -, o lançamento me permitirá ter acesso aos poemas desse escritor magnífico, de pouquíssimos leitores no Brasil, cuja principal obra, A morte de Virgílio, foi traduzida entre nós por Herbert Caro.

Em seu romance-poema, como bem o definiu Franklin de Oliveira, Broch “lida com metaproblemas, ao fazer jorrar sobre a aporia insolúvel de questões como a morte, a eternidade e a personalidade (a pessoa humana), inaudita luz, na tentativa de arrancar tais questões da condição de enigmas”.

A seguir, um trecho da quarta e última parte de A morte de Virgílio, “Éter – o retorno”:

A flutuante, intuitiva saudade começava a cumprir-se, convertia-se em flutuante realização. Pairando, como o garoto na proa, tendia o saber, tendia a jornada ao descanso no adejo comum, e quanto mais isso durava, quanto mais se prolongava o crescimento da noite e do barco noturno – incalculável a duração, incalculável qualquer medida, a claridade da noite impregnada de sombra, saturada de sombra! – tanto mais fugaz se tornava a voluteante figura do garoto; fugaz e mais fugaz, desnuda e mais desnuda tornava-se ela, conchegada ao clarão estelar, conchegada à obumbração, despojada da vestimenta e mais do que apenas dela, desvestido até a mais completa diafania; assim adejavam, mutuamente abraçados, o menino e a noite, oh, tão diáfanos! Ainda não e todavia já,… seria este o adro da realidade? O adro de sua terra natal, acima da qual giram todos os sóis, todas as luas, todas as estrelas, enchendo-a de esplendor?


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