A beleza salvará o mundo

Não me lembro como descobri A beleza salvará o mundo, de Gregory Wolfe. A Internet é floresta densa, repleta de sendas obscuras, semelhantes às de uma história infantil, nas quais, de página a página, de link a link, nos perdemos sem conseguir refazer o caminho inicial.

Numa dessas pesquisas aleatórias, cheguei ao site de Wolfe e deparei-me com esse título comum — ao menos para quem se recorda de Dostoiévski — e, principalmente, com o subtítulo que sintetizava uma de minhas constantes preocupações: “Recuperando o humano numa era ideológica”.

A identificação cresceu a cada ensaio de Wolfe que descobri. E se tornou plena ao ler algumas das páginas do livro, gentilmente

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Gregory Wolfe

fotografadas por uma amiga que reside nos EUA. Na primeira oportunidade, apresentei a obra aos editores da Vide e insisti para que a publicassem.

O resultado está, agora, à disposição de todos — e espero que A beleza salvará o mundo se transforme, no Brasil, no que ele já representa para muitos leitores de língua inglesa: um guia para os que acreditam, como T. S. Eliot, que “a vantagem essencial de um escritor é não ter um mundo maravilhoso com que lidar. É ser capaz de enxergar além tanto da beleza quanto da feiura; ver o tédio, o horror, a glória” — pensamento que Wolfe considera a “extensão natural da profecia de Dostoiévski”.

Preconceito e diálogo

Há muitos elementos que merecem atenção nos ensaios que compõem o livro — e abordei alguns dos principais no Prefácio que fui convidado a escrever —, mas o ponto essencial, decorrente do que citei no parágrafo anterior, é o comportamento conservador criticado por Wolfe. Aluno de Russell Kirk, o autor não teme afirmar que “a maioria dos conservadores pensa na cultura como um museu, e não como uma continuidade orgânica. Eles são todos a favor da promoção dos clássicos, mas quando se trata de cultura contemporânea, simplesmente se eximem”.

De fato, canso de ver, no meio conservador, preconceitos em relação à arte. Muitos conservadores estão apegados a uma visão simplista e superficial da realidade — e chegam mesmo a enaltecer uma estética rasteira, inócua repetição do passado, como se a arte que recusa a pauta niilista, formalista e solipsista só pudesse ser a cópia rebaixada de Homero, Virgílio ou Dante. Ou, ainda pior, devesse se restringir a uma função meramente catequética.

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“Vivemos em uma era dominada pelo racionalismo econômico oco envolto na retórica dos direitos” — Gregory Wolfe

Esse comportamento preconceituoso produz conseqüências assustadoras, como jovens que se negam a ler Hemingway, Kafka ou James Joyce, alegando a busca de uma suposta pureza, só encontrável nos autores que tenham recebido, em alguma época, um Nihil obstat.

Na verdade, dar as costas à cultura moderna — ou, como afirma Wolfe, “deixar-se desesperar sobre o nosso tempo” — é uma forma covarde de jogar essa mesma cultura nos braços insaciáveis do materialismo, de sucumbir à estreiteza do pensamento politizado e ideológico, de se tornar, citando Wolfe, um “discípulo involuntário de Marx”.

O caminho proposto por Wolfe é aquele seguido por grandes escritores, como T. S. Eliot, Evelyn Waugh, Flannery O’Connor, Susaku Endo, Nathaniel Hawthorne, Walker Percy e tantos outros: não se entrincheirar na sua própria fortaleza, não se entregar a um tipo de filistinismo que recusa a cultura do seu próprio tempo sem oferecer uma alternativa, sem se predispor ao diálogo.

Diálogo, aliás, que inquestionáveis defensores da ortodoxia católica, como o cardeal Leo Scheffczyk, souberam fazer com sucesso. Leia-se, por exemplo, de Scheffczyk, O Homem Moderno (Der moderne Mensh vor dem biblishen Menschenbild), e veja-se como o autor formaliza a crítica da “perda do humano na literatura moderna” — mas também dialoga com os autores que critica, sempre disposto a encontrar “notáveis pontos de luz” em cada um deles. Ou se preferirem, leiam a análise que Henri de Lubac faz de Dostoiévski em Le drame de l’humanisme athée.

Dramatizar os conflitos de seu tempo”

A necessidade de um novo humanismo cristão é urgente inclusive para se contrapor aos religiosos secularistas e laxistas, que se apressam, como afirma Wolfe, a “batizar cada tendência secular que passa”, a aceitar qualquer modismo esquerdista sem reflexão, a não ser o filtro de um religiosidade neopagã e sentimentalista — e, portanto, vulgar em todos os sentidos.

O caminho que Gregory Wolfe propõe não é simples, mas grandes artistas o realizaram, quando se dispuseram a “dramatizar os conflitos de seu tempo e incorporar significado em suas obras de maneira profunda”.

Como afirmo no final do meu Prefácio, enquanto lemos Wolfe somos atingidos, muitas vezes, pela suspeita de que ele tenta unir realidades incompatíveis. Mas tal impressão revela-se infundada sempre que ele repete a decisão de não aceitar passivamente o mundo pós-moderno e reafirma o desejo de transformar fé e arte num “traje inconsútil”. Caso a caso, Wolfe segue a máxima paulina: “Discerni tudo e ficai com o que é bom”.



  • Mateus Pool

    Caro Rodrigo, obrigado pela recomendação e pelo site, sempre cheio de material de qualidade. O livro de Wolfe me interessou principalmente porque parece abordar um ponto que há muito me questiono: como um escritor católico pode oferecer ao público uma prosa de qualidade, que reafirme os valores da fé, sem cair em esquematismos baratos dignos dos piores “romances de tese”, como os da escola naturalista ou das vanguardas? Como não transformar o livro em panfleto? Acho que, antes de mais nada, mesmo sendo fiel a fé, o escritor não pode fechar os olhos para o mal que há no mundo – e dentro de si próprio -, nem titubear quanto ao uso que deve fazer desse material: o mal, como todo fenômeno do humano, deve estar na prosa. Não precisa triunfar, não precisa desacreditar o homem, mas também não deve ser suprimido até que o desacreditado seja o autor – e sua obra. Se quiser compartilhar algum conselho, ficaria muito feliz. Grato uma vez mais!

  • Confesso que após ler este texto, fico bem mais à vontade para expor meu gosto por Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, James Joyce, Kafka, Edward Hopper, dentre outros. Mas por outro lado ainda continuo odiando as peças horrorosas da minha conterrânea Maria Martins. Não consigo ver nada mais do que ferro retorcido. Não é preconceito, é conceito mesmo.
    Abraço, professor.

  • Cleide Fayad

    Que maravilha sua apresentação do livro, verdadeira aula magna, Rodrigo. Obrigada!

  • Geraldo

    Cometi uns errinhos de concordância e estou postando o mesmo texto de novo, corrigido:

    Este artigo – e as obras com as quais
    ele dialoga – descortina diante de nós, inúmeras possibilidades. Gostei muito!
    Pois tento fazer exatamente isso no meu dia a dia: farejar a beleza por todo o
    canto, valorizar o mínimo pedacinho de bem e de verdade onde quer que isso se
    encontre e até mesmo em algo que pareça oposto ao que aprecio. Não me lembro se
    foi Sêneca ou Terêncio que disse aquela frase tão significativa “sou
    humano, nada pois, do que é humano me é estranho” ; mas creio que ela
    expressa certo feeling que deveria nos guiar no diálogo com o mundo sem
    armaduras e defesas tão rígidas quanto frágeis.

    Será que essa postura de fechamento, professor, que você critica no post, não
    favorece ainda mais o surgimento do feio, do grotesco e do medíocre?

    Outra questão que essa reflexão provoca em mim é a seguinte: A BELEZA não seria
    uma espécie de prova de fogo para a ideologia? Pois eu não creio que a
    esquizofrenia ideológica possa criar beleza, até porque , como diz Adélia
    Prado, a beleza é algo que se encontra na profundidade do real. Por isso ela
    diz “ninguém é o criador da Beleza. Ela vem, eu diria – como Guimarães
    Rosa – da terceira margem da alma.”

    Outra coisa,
    penso eu, é o pedaço de beleza que um ideólogo venha eventualmente a
    “criar” (ou refletir) apesar de sua ideologia e até mesmo – quiçá sem
    perceber – contra ela. O futuro utópico, por exemplo, em nome do qual o
    ideólogo, o militante e o ditador nos pedem (ou tomam na marra) um cheque em
    branco, certamente evoca anseios, esperanças e saudades que moram no coração
    humano, evoca a nossa experiência de seres incompletos que só o Infinito pode
    preencher.

    Penso que essa
    é uma experiência que pode ser veículo da expressão artística, mas ela é
    universal, não é criação do ideólogo. Se um artista, embora tornado míope pela
    ilusão ideológica, consegue perceber e comunicar com sinceridade, a mensagem
    daquela saudade de infinito que mora em nós, ele pode criar algo de belo.

    Mas se ele
    decide tampar os olhos a essa mensagem do real e o pior, oculta-la com suas
    próprias invenções artificiais ( ” o mundo como ideia”, diz
    B.Tolentino) aí creio , que ele não passa pela prova de fogo da beleza e produz
    uma estética feia ou pelo menos , medíocre e insossa, sem densidade.

    Não sei se digo besteiras, mas são essas coisas que passam
    pela minha mente e meu coração, quando reflito sobre a Beleza, a ideologia e as
    relações entre ambas.

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