A falha do romance brasileiro (segundo Manuel Bandeira e Nelson Ascher)

Dentre os artigos de Nelson Ascher na Folha de S. Paulo, sempre recordo de “O grande romance brasileiro”, publicado em 11 de outubro de 2004.

Partindo de um suposto encontro com certa escritora, finlandesa ou búlgara, Ascher constrói rara, irônica reflexão sobre o nosso romance.

Meses depois do encontro, em que o articulista expôs à escritora os “esplendores de nosso vernáculo”, esta lhe escreve, pedindo-lhe não “obras historiográficas ou tratados sociológicos”, mas romances que retratassem o Brasil. Ascher envia, então, alguns livros à curiosa escritora: “Machado, Mário, Oswald, Graciliano, Guimarães Rosa e Clarice”.

Passado algum tempo, ele recebe novo e-mail: “Obrigada. Os autores que você me mandou são magníficos e, se tivessem escrito em inglês ou francês, seriam universalmente reconhecidos. Lendo-os com atenção e concentrando-me nas entrelinhas fui capaz de vislumbrar algo da especificidade de seu país. Não me entenda mal: mesmo quem não saiba nada sobre sua terra pode se deliciar com eles. Mas aí é que está o problema, pois, embora eu tenha me deliciado, nem por isso creio saber hoje mais a respeito do Brasil do que antes de lê-los”.

Coloca-se, dessa forma, o problema do romance brasileiro, a sua falha: onde estão as “narrativas que, sem prejuízo da qualidade estética, oferecem um painel amplo e razoavelmente explícito do período histórico e da sociedade em que se ambientam”?

Nelson Ascher: “O Brasil produziu ficção boa e realista, mas a ficção boa não é especialmente realista e a ficção realista…”

Nelson Ascher: “O Brasil produziu ficção boa e realista, mas a ficção boa não é especialmente realista e a ficção realista…”

E a escritora insiste: “Quais são os melhores romances brasileiros sobre a era Vargas, a construção de Brasília, o golpe de 64, a ditadura militar e a transição para a democracia? Onde estão as sagas que descrevem a trajetória de diversas gerações de uma família italiana, árabe, japonesa ou judia desde sua chegada a Santos no início do século 20 até os anos 90? E as histórias de ascensão e queda individual cujo pano de fundo sejam as transformações de São Paulo ou do Rio?”.

Ela também observa que não há, no Brasil, “uma única variante local notável de um subgênero tipicamente latino-americano, o romance sobre ditadores como O Outono do Patriarca, de García Márquez, ou O Senhor Presidente, de Miguel Angel Asturias”. E completa, indignada: “Impossível, afinal vocês tiveram o ditador mais interessante de todo o subcontinente: quem são Perón, Trujillo, Pinochet e Castro comparados a Getúlio?”.

A resposta de Ascher expõe, com ironia, uma das nossas fissuras culturais: “O dr. Samuel Johnson disse certa vez a um jovem autor que seu manuscrito era bom e original, mas a parte boa não era original e a parte original não era boa. Pois bem: o Brasil produziu ficção boa e realista, mas a ficção boa não é especialmente realista e a ficção realista…”.

Nelson Ascher, que é poeta, tradutor e ensaísta, reflete um pouco mais sobre a questão e faz interessantes suposições sobre os motivos dessas lacunas: “[…] Talvez o país seja demasiadamente extenso e incompreensível, talvez o material necessário para estudá-lo nem sempre estivesse à mão, talvez os autores se sentissem intimidados pelos mestres europeus e norte-americanos ou se dirigissem a um público que, além de reduzido, conhecia o contexto tão bem quanto eles, talvez achassem o país maçante, repetitivo, imutável”.

O artigo não se esgota aí — e, tenham certeza, é muito mais perspicaz do que o injusto resumo que tentei construir.

Fantasia e imaginação no romance brasileiro

Hoje, passados quase dez anos, o que poderíamos responder às justas cobranças da personagem de Nelson Ascher? É o que me pergunto desde que li e guardei o artigo. E até hoje só penso num autor que talvez pudesse satisfazer a insistente escritora: Érico Veríssimo — e seu O tempo e o Vento.

Mas, como em tantos outros casos, a exceção confirma a regra. Uma só obra é muito pouco para a literatura que tem mais de três séculos.

À parte os nomes que, porventura, estejam me escapando, a pergunta central ainda não tem resposta: que outras razões poderiam existir, além das sugeridas por Ascher, para nossos escritores não produzirem o grande romance brasileiro?

Manuel Bandeira: “Sem dúvida, os brasileiros somos bem imaginosos. Mas falta-nos a aptidão de combinar tanta abundância de imagens e, sobretudo, de as exteriorizar artisticamente num entrecho que nos dê a ilusão da vida em toda a sua rica versatilidade”.

Manuel Bandeira: “Sem dúvida, os brasileiros somos bem imaginosos. Mas falta-nos a aptidão de combinar tanta abundância de imagens e, sobretudo, de as exteriorizar artisticamente num entrecho que nos dê a ilusão da vida em toda a sua rica versatilidade”.

Sete décadas antes desse artigo, Manuel Bandeira, numa crônica publicada no Estado de Minas, no dia 9 de setembro de 1933, tratou do mesmo problema.

Bandeira diferencia “imaginação” de “fantasia”, citando o filólogo e crítico literário João Ribeiro, para quem a “pura imaginação” é “aptidão a reproduzir no espírito as sensações, na ausência das causas exteriores que as provocaram”, enquanto define “fantasia” como a “capacidade de organizar as imagens na unidade de uma obra”.

Sobraria imaginação aos romancistas brasileiros, segundo Bandeira. E eles teriam lá o seu tanto de fantasia, suficiente para “representar uma vida, algumas vidas”. Mas o poeta completa: “Desde, porém, que elas são numerosas e as relações se multiplicam e complicam, falta-nos a força do contraponto para compô-las, e nem mesmo se tentará a obra”.

Nossos bons romancistas, salienta Bandeira, apresentam mais “as qualidades de observação e crítica, de introspecção ou de construção e estilo”, mas com um “trabalho da imaginação pouco sensível”.

Bandeira esclarece: “Sem dúvida, os brasileiros somos bem imaginosos. Mas falta-nos a aptidão de combinar tanta abundância de imagens e, sobretudo, de as exteriorizar artisticamente num entrecho que nos dê a ilusão da vida em toda a sua rica versatilidade”.

Onde estão os nossos romances “espessos, cerrados, florestais”? “Não há nenhum”, responde Bandeira, “ainda que péssimo”.

Onde estão os nossos romances “espessos, cerrados, florestais”? “Não há nenhum”, responde Bandeira, “ainda que péssimo”.

Manuel Bandeira, contudo, também não tem certeza sobre os motivos desse defeito, ainda que aposte em alguns: “Será por falha fundamental da capacidade criadora ou simples vício de composição, falta de aplicação ou ausência de estímulo?”.

De minha parte, descarto uma “falha fundamental da capacidade criadora”, pois isso seria nos condenar a um atavismo próprio dos piores naturalistas. Aposto mais no “vício de composição” e na “falta de aplicação” — problemas, aliás, que o minimalismo das últimas décadas só acentuou, desculpando a lacuna com justificativas pretensamente estéticas.

Os questionamentos da escritora de Nelson Ascher talvez tenham sido parcialmente respondidos por Manuel Bandeira. Mas as insistentes cobranças dessa “finlandesa ou búlgara” continuam de pé: onde estão os nossos romances “espessos, cerrados, florestais”? “Não há nenhum”, responde Bandeira, “ainda que péssimo”.



  • Lucas

    Do jeito que a literatura brasileira contemporânea anda nunca haverá mesmo. Pelo visto os autores atuais não se preocupam muito com os problemas do próprio país, e ainda há aqueles que parecem repudiar a cultura e terreno brasileiro. É uma vergonha, nós que temos temas tão exclusivos como a política e seus derivados… Eu sempre falo com meus colegas, quando entramos nesse assunto, que não existe povo melhor para tratar de política como nós brasileiros. Está no sangue, e a maioria ignora isso.

  • Ronaldo Trentini

    Sempre existe alguma coisa. Temos que considerar Jorge Amado e Zélia Gatai. Aliás, a segunda nos traz o maravilhoso Anarquistas Graças a Deus e o brilhante Um Chapéu para Viagem. Além do espetacular Agosto, de Rubem Braga, que retrata um momento crucial do período Vargas.

  • José Geraldo Gouvêa

    Eu tenho uma tese sobre o assunto, que ouso compartilhar aqui: a literatura brasileira padece de diletantismo e isso lhe causa uma perda de foco e de profundidade.

    “Diletantismo”, eu digo, porque nós não temos uma estrutura para revelar, remunerar e orientar a formação dos escritores. Não há revistas publicando contos, não há prêmios literários sérios e amplamente divulgados, não há perspectiva de carreira para quem apareça com um romance estupendo. Na verdade, quase tudo que um jovem autor possa fazer vai lhe custar dinheiro em vez de lhe trazer. Isso tem consequências.

    Se a literatura, em vez de ser uma perspectiva de carreira para quem tenha inclinação às letras, aparece como algo custoso, isso vai provocar duas influências, ambas negativas a meu ver.

    A primeira é que a literatura será vista como um hobby ou como algo desconectado do processo produtivo cultural e da sociedade como um todo. Deixa de ser parte da essência do ambiente cultural e se torna um acessório.

    A segunda influência é que esse hobby, por ser custoso, será acessível somente aos bem nascidos ou aos que consigam obter bons empregos. Esta influência se bifurca em duas outras, ainda mais negativas.

    Por um lado, a literatura feita pelos bem nascidos tende a ser alienada, mais especialmente em um país como o nosso, onde são tão díspares as condições de vida entre diferentes comunidades, tanto horizontalmente quanto verticalmente.

    Por outro lado, a literatura feita pelos empregados tende a ser produzida no tempo que lhes sobra, com as energias que ainda lhes restem.

    Se a primeira é uma literatura sem vivência de primeira pessoa, a segunda é uma literatura de jorros precários.

    A primeira se baseia em “pesquisa”, muitas vezes livresca, ou em informações de segunda mão, em geral distorcidas ou preconceituosas. A segunda sofre de falta de continuidade.

    Não vou me estender muito sobre a literatura dos bem nascidos porque não é o meu caso, apenas citei as impressões que ela me evoca, às vezes. Às vezes. Mas a literatura dos empregados tem tudo a ver comigo.

    Sem perspectiva de se formar escritor e crescer com isso, o jovem que se acha talentoso precisa dedicar suas melhores energias e os melhores anos de sua vida a aprender coisas que nada têm a ver com literatura, perseguir uma carreira extra-literária e acumular capital até obter segurança material. Enquanto isso praticará a literatura nas horas vagas, com o que lhe reste de ânimo. Se um dia obtiver a estabilidade sonhada, talvez possa até dedicar-se integralmente a escrever, mas já será tarde.

    Será tarde porque os anos que passou tendo a literatura num canto de sua vida, em vez do centro, determinaram que sua escrita se cristalizasse no amadorismo. Ele poderá passar a escrever em tempo integral, mas continuará sendo um amador.

    Tem sido assim há bastante tempo. Mas o problema do amadorismo é grave.

    O amador não possui, realmente, os conhecimentos profundos que são necessários para a atividade. A excelência reside no profissional, no que pratica continuamente, que se dedica exclusivamente. Um peladeiro, amador, dificilmente será tão bom quanto um jogador profissional. A menos que o primeiro tenha muito talento natural e o segundo seja um grande embuste. O amador sobrevive do inato, do instinto e de alguma coisa que conseguiu ajuntar de conhecimento e prática ao longo da vida, no tempo que sobrou de sua dedicação à sobrevivência.

    A condição inerente do amador é não ter, portanto, desenvolvida plenamente a capacidade de grande observação. Aquela visão larga que permite a um autor profissional delinear um painel detalhado e abrangente de um contexto. O tipo de romance que você procura, o “romance épico” como eu preferiria chamá-lo, somente pode ser produzido por alguém de grande cultura (para conhecer o assunto) e de grande prática literária (para poder manipular toda a complexidade necessária à construção de uma obra de tal fôlego).

    Certamente alguém como eu jamais conseguirá. Por mais que eu tenha uma cultura variada e um bom domínio da norma culta, tenho certeza de que um e outro apenas parecem grandes porque a média é baixa: em geral os brasileiros não têm muita cultura e conhecem mal a norma culta. Ainda mais: o pouco hábito de escrita entre nós pode criar grandes ilusões literárias em pessoas que conseguem ir além do instrumental.

    Acima de tudo, o amadorismo se torna cruel quando aqueles que possuem mais dinheiro ou influência utilizam esses recursos para se promoverem, e assim adquirem um protagonismo que não conseguiriam pela simples força de seus livros. Nossa literatura hoje compete com livros escritos por celebridades (até Paulo Coelho era celebridade antes de virar mago literato, tendo sido renomado compositor antes disso) ou que apelam ao senso comum e à vulgaridade (como a obra de Bruna Surfistinha). Isso nos leva a concluir que, além de todos os obstáculos estruturais já citados, que castram a habilidade criativa de tantos autores nacionais, ainda existe a outra bandeja da balança: não há demanda para esse tipo de romance que você procura. Pelo menos não escrito por um autor nacional.

    O que nos leva ao problema da forte influência estrangeira, que compete com o produto nacional, mas isso é coisa para outro dia.

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  • Fernando Carneiro

    Jose Geraldo Vieira escreveu um romance sobre a construcao de Brasilia; Coelho Neto escreveu um, “O morto”, cujo pano de fundo foi a Revolta da Armada. De outros romances com essas caracteristicas tambem nao me recordo.

    Para o nosso naturalismo o pano de fundo deve ser nao o contexto historico, mas o contexto natural dos personagens. Ja a esquerda de depois do golpe de 64 coloca o contexto historico como pano de fundo, mas do ponto de vista ideologico bastante especifico de um grupo pequeno. Isso deve explicar parte do problema mas nao explica porque uns poucos autores, e nao so Erico Verissimo, nao tenham criado narrativas com pano de fundo historico mais amplo.

  • Jose Coelho

    Bom, eu modestamente opino que não creio que a saga de Antonio Conselheiro não signifique algo conforme sugerido na matéria.

  • Jose Coelho

    Se for analisar a atualidade, não se pode dizer que não há tal romance. Hoje em dia o modo de distribuição dos livros mudou muito e com isso também mudou a cara da literatura brasileira. Temos que considerar os independentes também. Não apenas os escritores que embora de grande valia, habitam o Olimpo das letras e não deixam um reles mortal se aproximar. Espero ter contribuido humildemente com essa sugestão, ao escrever meu livro e publicá-lo de forma independente, onde analiso um período da nossa história que é justamente a abertura democrática. Para quem quiser analisar e criticar com propriedade, visto que sou apenas um debutante nessa seara, aí vai o link da editora:
    http://editoramultifoco.com.br/loja/product/iaci-no-pais-do-curupira/

  • Raquel Sallaberry

    Engraçado… li toda a parte do Nelson pensando no Érico Veríssimo.