A importância da leitura — e o leitor ideal

Nestes dias, refletindo sobre a importância da leitura, lembrei-me de dois escritores que me agradam por motivos diferentes.

Poucos, raros autores conseguem expressar a dor de viver sem cair no melodrama. Em A Praça do Diamante, de Mercè Rodoreda, que li há vários anos, o ritmo do existir pulsa a cada página numa dimensão real, com alegrias e tristezas, sonhos e decepções. E tudo por meio de uma voz de mulher, simples como nós, aberta aos acontecimentos, vendo o mundo girar numa velocidade às vezes alucinante, às vezes de forma tão quieta que consegue ouvir seus pensamentos.

A importância da leitura - Rodrigo Gurgel

Em “A Praça do Diamante”, de Mercè Rodoreda, o ritmo do existir pulsa a cada página.

Entre a inocência e a decepção, sem mágoas ou ressentimentos, Colometa, a protagonista, nos enlaça com sua voz, na qual, apesar de todos os desgostos, ela esconde tons de alegria, esperança e espanto.

A Praça do Diamante é um dos poucos livros que gostaria de reler.

Outro escritor que não me sai da memória é Cormac McCarthy. Em A estrada, a desolação da paisagem, o embate entre homem e natureza, a visão do futuro como um amontoado de forças obscuras, diante das quais o homem não possui poder algum, e a idéia de um Deus que, impassível, parece assistir à tragédia humana, mas que guarda sua interferência para o momento supostamente propício, formam a trama na qual a destruição tornou-se absoluta.

Nesse mundo, o herói não se defronta mais com a possibilidade de escolher entre o Bem e o Mal, pois está condenado a uma busca inesgotável — a procurar o Bem, a ansiar por ele, sem jamais encontrá-lo. E o mais terrível: se quiser permanecer vivo, a fim de lutar pelo futuro em que possa ser novamente aquele que estabelece um tempo de justiça, o herói terá de negar ajuda a seu semelhante.

A importância da leitura - Rodrigo Gurgel

O herói não se defronta mais com a possibilidade de escolher entre o Bem e o Mal, pois está condenado a uma busca inesgotável — a procurar o Bem, a ansiar por ele, sem jamais encontrá-lo.

O primeiro parágrafo de A estrada serve como síntese do que aguarda o leitor: frio, escuridão, a presença da criança pura, o cuidado do homem que a acompanha, a sujeira, a morte da nossa civilização. E a linguagem de McCarthy, tão sublime quanto trágica: “Noites escuras para além da escuridão e cada um dos dias mais cinzento que o anterior. Como o início de um glaucoma frio que apagava progressivamente o mundo”. Ou a imagem arrancada de um sonho dantesco: “A luz deles brincando sobre as paredes úmidas de rocha calcária. Como peregrinos numa fábula engolidos e perdidos nas entranhas de alguma besta de granito”.

O leitor ideal

Mas afirmei que refletia sobre a importância da leitura.

Recordei-me, então, do poema “O Leitor”, de Rainer Maria Rilke:

Quem pode conhecer esse que o rosto

mergulha de si mesmo em outras vidas,

que só o folhear das páginas corridas

alguma vez atalha a contragosto?

 

A própria mãe já não veria o seu

filho nesse diverso ele que agora,

servo da sombra, lê. Presos à hora,

como sabermos quanto se perdeu

 

antes que ele soerga o olhar pesado

de tudo o que no livro se contém,

com olhos, que, doando, contravêm

o mundo já completo e acabado:

como crianças que brincam sozinhas

e súbito descobrem algo a esmo;

mas o rosto, refeito em suas linhas,

nunca mais será o mesmo.

A interrogação que inicia o poema tem uma única resposta: “Ninguém”. Há leitores e leitores, certamente, mas este, irreconhecível à própria mãe, este é o leitor ideal, para quem o livro supera a condição de passatempo, torna-se porta de entrada à dúvida, à auto-análise — às vezes, um caminho que leva à controvérsia.

A importância da leitura - Rodrigo Gurgel

Quem pode conhecer esse que o rosto / mergulha de si mesmo em outras vidas, / que só o folhear das páginas corridas / alguma vez atalha a contragosto? — Rainer Maria Rilke

Esse leitor ideal não teme ver suas convicções abaladas. A dúvida o seduz. Ele se apossa da fé ou da hesitação de um personagem, do medo, da loucura, da paixão, do crime. Nada se perde para ele, enquanto seu olhar devora as linhas.

Walter Benjamin, em um de seus textos, “Romances policiais, nas viagens”, diz sobre os leitores desse gênero literário que “a anestesia de um medo por meio de outro é a sua salvação”. E conclui: “Entre as folhas recém-separadas” — naquele tempo, os livros não eram refilados — “dos romances policiais, ele procura as angústias ociosas, de certo modo virginais, que poderiam ajudá-lo a superar as angústias arcaicas da viagem”.

Mas o leitor ideal, o leitor de Rilke, não deseja ser anestesiado. Enquanto lê, coloca o mundo em estado de espera e, página a página, reordena a vida, dizendo “sim” ou “não” a si mesmo.

Pouco importa que o mundo se ofereça como “completo e acabado”, pois ele sabe que tudo está por ser feito. Assim, quando ergue os olhos da página, sua expressão, entre a surpresa e a desconfiança, diz: — Ainda está tudo aí? Ah… mas não por muito tempo.

Esse é o leitor ideal: um ser em perene transformação. Nenhuma linha é inútil para ele. Nada pode diminuí-lo, nem mesmo os livros ruins. Até esses ele consegue ler, apenas para, ao fechar o volume, sorver a delícia de suas poucas certezas e sorrir com ironia.



  • Não há nenhum problema em ouvir e ler ao mesmo tempo. Todos os recursos que possam ajudar você são válidos.
    Não sou um especialista em dislexia, mas faça uma pesquisa no Google: há fontes, para computador, especiais para disléxicos — e elas parecem ajudar realmente a leitura.
    Obrigado pelas boas palavras — e coragem para a luta!

  • Tamas Souza

    Olá, professor. Parabéns pelos artigos! Gostaria de saber sua opinião sobre histórias em quadrinhos. São válidas como leitura ou são um caso à parte? Considera que há mérito artístico nelas?
    Desde já peço desculpas se achar que o comentário não foi pertinente ao espaço.
    Abraços.

    • Claro que há mérito artístico em alguns quadrinhos. Quanto à linguagem, contudo, não é a adequada para quem deseja ser escritor. Se for o seu caso, procure ler grandes escritores, como Flaubert, Proust, Hermann Broch e outros.

  • Douglas Simões Rodrigues

    Há tempos venho me infectando com textos frios, sem vida, lendo apenas manuais, textos de leis e noticias ordinárias da grande mídia. Agora, no entanto, estou voltando à literatura na tentativa de reparar o dano causado à sensibilidade da minha alma.
    Parabéns pelos artigos, professor! Eles têm me feito trilhar bons caminhos. Abraços!