A solidão definitiva

Ele declamava Baudelaire em francês, ressaltando os mínimos segmentos dos versos, das palavras, o significado adormecido nos fonemas. Poucos gestos acompanhavam a voz rouca, desprovida de veemência. A meia-voz, movendo delicadamente os dedos da mão direita, sem erguê-la acima da cintura, olhando através de nós, fazendo leves meneios com a calva aureolada de cabelos brancos, instaurava em nosso meio o magnetismo do poema. 

Um, dentre os que compõem Les fleurs du mal, tinha sua preferência: À une passante. Ao declamá-lo, concedia vida às figuras, desenhando a mulher lânguida que vence o espaço com o farfalhar do seu vestuário e vem ferir nossa pele. O que nos fascinava mais — a imagem feminina ou a música dos versos? — é, ainda hoje, passados mais de trinta anos, um mistério para todos que frequentavam a livraria.

Domingos nos lançava ao abismo evocado pelo olhar — ciel livide où germe l’ouragan — e de lá nos erguia apenas para, logo depois, abandonar-nos à douceur qui fascine et le plaisir qui tue. Entretanto, o fim do soneto se aproximava; no início do último terceto, as três exclamações sucediam-se num prenúncio do fecho daquele encontro, e ele exprimia uma perturbadora tensão, querendo retardar o final. Mas era impossível impedir a conclusão dilacerante — Ô toi que j’eusse aimée —, momento em que nosso amigo soçobrava, pronunciando a segunda metade desse último verso — ô toi qui le savais! — com uma dolorosa contorção da voz.

Levantava-se, então, da poltrona, permitindo-se uma sucessão de arroubos, como se quisesse escapar da fatalidade do final ou de alguma lembrança evocada pelo poema. “É lindo! É lindo!”, exclamava, tropeçando nas pilhas de livros amontoados no chão, tentando dar passos largos no acanhado cômodo que servia de cozinha, depósito e sala de estar. “Não é lindo?!”, insistia, olhando para nós, extasiado por uma felicidade pueril. 

Como discordar do seu entusiasmo? Assim, correspondíamos, declamando outros poemas de Baudelaire, mas destituídos da mesma beleza. E ainda que nossas escolhas, nos primeiros minutos dos encontros, não recaíssem sobre o poeta francês, no transcorrer da tarde, em uma pausa para o chá ou quando um poema evocasse alguma figura feminina, Domingos lembraria um verso do seu À une passante, qual delicada observação, inocente nota ao pé da nossa tertúlia, sugerindo que Baudelaire fizera melhor.

À parte essa agradável fixação, sua característica mais contagiante talvez fosse a alegria. Chegava timidamente, mas, minutos depois, já o escutávamos contar algum chiste, nunca grosseiro. Atento aos detalhes, quando a roseira do jardinzinho da entrada começava a florir, detinha-se ali por algum tempo, para aspirar o perfume e conferir as pétalas amarelas, manchadas de vermelho nas bordas.

Solícito, amigável, irredutível apolítico, possuía rara erudição, perdido naquela cidade do interior. Não poucas vezes declamávamos poemas seus — ele pertencera à chamada Geração de 45 — ou os que traduzia do francês e do alemão, como os de Georg Trakl, ao qual dedicamos, certa vez, as tardes de um inverno.

II

Assim que terminavam as festas de fim de ano, nosso grupo diminuía. Alguns saíam de férias com a família e outros se deixavam ficar em casa, intoxicados pelo verão. As vendas na livraria caíam e desperdiçávamos as tardes em partidas de xadrez ou imensos quebra-cabeças.  

Domingos também se ausentava, preferindo nadar horas seguidas, em moderada cadência, num clube local. Ao reaparecer, metamorfoseado pela tez bronzeada, sempre vestindo calças e camisas de linho em tons bege, assemelhava algum magnata retornando das férias no litoral, e não o escritor que havia perdido grande parte da vida preso à contabilidade de um banco. 

Em certo tempo, contudo, suas ausências alongaram-se. Nenhum de nós poderia precisar a semana na qual notamos que esse comportamento, comum nos meses de verão, estendera-se até meados do outono. Sentíamos sua falta, cobrávamos sua presença, e ele respondia com evasivas, meios sorrisos, deixando as visitas rarearem. 

Certa tarde, nos fundos da livraria, enquanto eu preparava o chá, ele veio confidenciar-me, numa fala entrecortada, as consultas aos médicos e as dezenas de exames que o ocupavam. Salientou a dificuldade de concentração, sem definir qualquer sintoma, misturando às questões de saúde outros assuntos, que me pareceram incompreensíveis. Interpretei aquela expressão desordenada como uma relutância em revelar sua vida íntima e, sutilmente, sem aferrar-me aos detalhes, procurei demonstrar interesse pelos problemas. Mas poucos meses depois, enquanto as visitas tornavam-se ainda mais esparsas e seu raciocínio começava a ser envolvido por um angustiante embotamento, compreendi: naquela tarde, havia testemunhado os primeiros sinais da doença que o destruiria.

A morte vagarosa dos neurônios e a inexistência de qualquer cura resumiam o diagnóstico, revelado por Domingos em algum momento da sua derrocada. Ele se apegava, no entanto, à sombra de esperança concedida pelos especialistas — essa retórica tão enganadora dos médicos —, acreditando que, se exercitasse o raciocínio de forma constante, poderia retardar o avanço da doença. Tentou fazê-lo, mas a tradução, antes prazerosa, transformou-se num esforço cansativo. O sentido das palavras lhe escapava e os versos não se concatenavam. Perdia-se também nas leituras, passando horas a devanear, ouvindo Mozart.

De repente, movido por um impulso, buscando, quem sabe, manter os últimos elos que lhe asseguravam a lucidez, retomou as visitas diárias à livraria. Carregava no pescoço uma corrente de ouro, que trazia a pequena placa, igualmente dourada, na qual constavam seu nome, telefone e endereço, pois havia o risco de se esquecer do caminho de volta para casa. Baudelaire se esvaíra de sua memória e, demonstrando aversão, ele se abstinha de declamar qualquer poema. Buscava, com insistência, participar das conversas, mas seu discurso se resumia a uma ansiosa colagem de vazios e alguns poucos conectivos. Parecendo saber o que pretendia expressar, os olhos se iluminavam, ele gesticulava, apoiava-se aos braços da poltrona, a boca ensaiava uma articulação… mas o nome lhe fugia. Pacientes, íamos deduzindo sua fala e preenchendo-a com os termos que faltavam, enquanto ele, vendo suas idéias tomarem forma, sorria.

Consciente ou não, passou a escapulir de casa, deixando a mulher e a filha desesperadas. Saíam à procura dele pelas redondezas e acabavam por encontrá-lo na livraria. Acabrunhado, ele as seguia, despedindo-se de nós com um tímido aceno, para voltar na tarde seguinte ou dias depois, fiel à sua inútil obstinação. Comportou-se assim até atingir o limiar da apatia, quando as palavras deixaram de existir, restando-lhe apenas algumas poucas interjeições. Ainda conseguia sorrir. E, em determinados momentos, demonstrava nítida tristeza. 

Uma tardezinha, vieram buscá-lo a última vez. Anoitecia. O movimento dos carros era intenso e as buzinas lamentavam-se em meio à lerdeza do trânsito. Três ou quatro de nós ficamos à porta da livraria, emudecidos, sentindo-nos inúteis, vendo-o partir no automóvel, cabisbaixo, semelhante às crianças quando são, por algum motivo, repreendidas.

III

Depois desse dia, confesso ter feito a meu amigo uma única visita, impregnada do constrangimento que, certas vezes, se intromete entre nós e aqueles que amamos. 

— Como ele está? — perguntei à mulher cujas olheiras emolduravam a porta de entrada.

— Você sabe… Do mesmo jeito… — ela respondeu, levando-me pelo corredor, os olhos baixos e as mãos apreensivas esfregando-se devagar. — Ele não vai nem perceber que é você quem está aqui… — e olhava-me sob o peso da lembrança de outras tardes, nas quais ele me recebia, anunciando-me, de maneira infantil, o novo verso traduzido.

Aguardei-o em seu escritório repleto de livros, onde soava uma música tênue, cujos acordes, a princípio, não reconheci. 

Logo depois, amparado pela mulher, ele veio, abúlico, despojado de qualquer expressão capaz de revelar uma nesga de raciocínio ou um mínimo sentimento. Colocado na cadeira de balanço, próximo da janela aberta para o jardim-de-inverno, ficou ali, salvo da inércia absoluta somente pelo sugestivo movimento das mãos, que se buscavam sem trégua.

Mas fragmentos de Domingos ainda transpareciam naquele corpo. Alguma brandura repousava nas mãos pequenas, ou nos lábios que também se mexiam instintivamente. Sim, agora eu reconhecia a música: o adágio do Concerto para clarinete, de Mozart, repete, contra a luz da janela que emoldura a silhueta de Domingos, os gestos tímidos de quando ele declamava Baudelaire.

Vejo a consciência de meu amigo, reduzida, diminuir ainda mais a cada minuto, dissipando-se por seus poros, perdendo-se sem qualquer destino. Seu mundo se extingue, e entrevejo um halo translúcido cobrir-lhe as mãos, a cabeça, o ventre, como se a luz que entra pela janela tentasse reter naquele corpo um resíduo, uma insignificante lembrança da personalidade de Domingos — uma aura na qual lutam, tentando se adensar, os últimos sinais da lucidez. 

Cercados pelos livros, temos os olhos presos à luz que rasga a janela. Estamos sós aqui, ele mais do que qualquer outro, acorrentado ao vazio em que a poesia não pode adentrar.

 

***

La rue assourdissante autour de moi hurlait./ Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,/ Une femme passa, d’une main fastueuse/ Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;// Agile et noble, avec sa jambe de statue./ Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,/ Dans son œil, ciel livide où germe l’ouragan,/ La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.// Un éclair… puis la nuit! – Fugitive beauté/ Dont le regard m’a fait soudainement renaître,/ Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?// Ailleurs, bien loin d’ici! trop tard! jamais peut-être!/ Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,/ O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais! (A rua, em torno, era ensurdecedora vaia./ Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,/ Uma mulher passou, com sua mão vaidosa/ Erguendo e balançando a barra alva da saia;// Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina./ Eu bebia, como um basbaque extravagante,/ No tempestuoso céu do seu olhar distante,/ A doçura que encanta e o prazer que assassina.// Brilho… e a noite depois! — Fugitiva beldade/ De um olhar que me fez nascer segunda vez,/ Não mais te hei de rever senão na eternidade?// Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!/ Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,/ Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste! — tradução de Guilherme de Almeida.)