Cinema e literatura

Voltei a pensar nas possíveis conjunções entre cinema e literatura quando meu amigo Sérgio de Souza, que mantém o blog “O Camponês”, pediu-me, há algumas semanas, a lista dos meus filmes prediletos. Não consegui, naquela oportunidade, por absoluta falta de tempo, escrever comentários que justificassem minhas escolhas. E também não farei isso aqui. Meu objetivo é apenas dialogar de modo livre com algumas de minhas lembranças cinéfilas, tentando uni-las à literatura.

O primeiro filme que surge quando penso na relação entre cinema e literatura é À sombra do vulcão, de John Huston, baseado no romance homônimo de Malcolm Lowry. A lembrança ocorre motivada talvez pela situação em que assisti ao filme. Era uma tarde de sábado em São Paulo, há mais ou menos 30 anos — e como fiz tantas vezes, caminhava, solitário, pela região entre a Praça da Sé e o Largo do Arouche, visitando sebos e livrarias. Entrei no cinema sem nenhum motivo especial, a não ser o de me livrar do calor, mas quando o filme terminou, eu estava arrasado. Saí em busca, imediatamente, do romance, que encontrei num sebo: uma edição da antiga Artenova, de 1975.cinema e literatura john huston

Uma das epígrafes do romance, extraída da autobiografia de John Bunyan, Grace Abounding to the Chief of Sinners, sintetiza a trama: “Então, abençoei a condição do cão e do sapo, sim, com alegria teria eu estado na condição do cão ou do cavalo, pois sabia não terem eles alma para perecer sob o peso perene do Inferno ou do Pecado, como deveria com a minha acontecer. Não, e apesar de ver isto, sentir isto, e estar em pedaços por isto, o que ampliava minha dor era em mim não poder encontrar, com toda a minha alma, o desejo da salvação”.

A forma como Geoffrey Firmin, cônsul britânico na pequena cidade mexicana de Quauhnahuac, caminha para a morte em pleno Dia de Finados é o triste, avassalador sumário de tantas vidas que encontramos entre nossos semelhantes: são os que desistiram.

O romance, claro, abre ao leitor uma vastidão de simbolismos que, apesar de estarem no filme, passam despercebidos. De qualquer forma, ambos, livro e filme, são uma caída vertiginosa na dor e na impossibilidade de superar a amargura.

Sempre que posso, revejo O poderoso Chefão e Star Wars. Agradam-me esses conjuntos que formam um mundo à parte; representam o que esperamos dos grandes romances: a criação de um universo em parte oposto ao nosso — no qual os valores em que acreditamos são questionados —, mas que nos seduz exatamente pela perfeição com que é construído, com sua complexidade particular.

Nossa vida comum está distante — e ao mesmo tempo inserida — no jogo de crime e poder criado por Mario Puzo; e talvez seja isso o que nos arrebata: o fato de estarmos sempre a um passo de romper com a estabilidade ética que construímos, dia a dia, com extrema dificuldade; ou, dizendo de outra forma, a percepção que livro e filme nos dão, de que o equilíbrio moral em que vivemos é frágil.

Ainda que em Star Wars a dicotomia entre bem e mal seja mais clara, a forma como Anakin Skywalker se transforma em Darth Vader coloca de forma admirável as nuances enganadoras que separam o bem do mal. A transfiguração de Anakin é um estudo sobre as escolhas humanas, escolhas diárias que, muitas vezes, conduzem o homem de maneira imperceptível a essa transmutação, a essa passagem da luz à sombra — processo que, nas mãos de um hábil romancista, poderia ser o núcleo de um clássico, como as inúmeras releituras da lenda do Dr. Fausto.

cinema e literatura richard brooksNuma perspectiva oposta — da sombra à luz — Cat on a Hot Tin Roof (Gata em Teto de Zinco Quente), baseado na obra homônima de Tennessee Williams, mostra Brick Pollitt, deprimido e alcoólatra, às voltas com um drama menor em seu casamento. O centro do filme — em que hipocrisia, ganância e morte disputam a vitória — está num dos melhores diálogos do cinema, quando pai e filho se enfrentam.

Ao contrário do que nos ensina o freudismo — e aí está a maravilha do filme —, a violência paterna de Big Daddy, violência quase física, é o que salva Brick, acordando-o para a realidade.

Numa versão moderna, o filho imaturo e infantil sairia vitorioso, tamanha a inversão de valores em que vivemos. Mas na produção de 1958 a lição é clara: o amor, para vencer, precisa muitas vezes ser violento, agressivo, a fim de se impor sobre o erro e a covardia. Mas termino com uma reflexão algo melancólica: tenho sérias dúvidas se há, no Brasil de hoje, jovens escritores capazes de produzir um diálogo tão extenso e, ao mesmo tempo, tão veemente.