7 contos extraordinários

Em minha relembrança de alguns contos extraordinários, gostaria de começar por (1) “Eveline”, de James Joyce, narrativa que utilizo em uma de minhas aulas da Oficina de Escrita Criativa.

Trata-se de uma narrativa curta, concentrada na personalidade da jovem que, em grande parte do texto, permanece sentada à janela, “a cabeça apoiada na cortina, aspirando o poeirento odor do cretone”. A indefectível tristeza dessa história — a de uma jovem maltratada pelo pai despótico e alcoólatra, sofrendo humilhações no emprego e apegada à lembrança da morte de sua mãe — agride-me sempre. É inevitável.

contos extraordinários rodrigo gurgel

James Joyce

O abrupto e perfeito salto no tempo, quando o narrador transfere a história para a plataforma de embarque do porto de North Wall, e a imagem da mãe que, no leito de morte, grita “— Derevaun seraun” [do gaélico: “A dor é o fim do prazer”] em “desvairada insistência” são, para mim, os dois elementos-chave, sem os quais o final não teria sua carga dramática.

Poucas coisas podem ser mais trágicas do que o temor de buscar a felicidade — mas, no caso de Eveline, a desventura é ampliada pelo fado que herdou da mãe: “uma existência de sacrifícios banais terminada em loucura”.

Outro conto incrível que faz parte de Dublinenses é (2) “Os mortos”, extensa narrativa, composta na forma de um adágio cujo crescendo nos envolve vagarosamente. Os elementos que se concentram no final são enunciados passo a passo, engendrando uma trama sutil, de fecho inesperado, protagonizada pelo culto e metódico Gabriel Conroy, dividido entre o saudosismo, a melancolia e os valores representados pelas tias — a polidez, a hospitalidade, a gratidão — e a força do presente, seu apelo à vida e à dedicação àqueles que estão vivos.

Ao mesmo tempo, o amor de Gabriel por sua esposa, o carinho, a admiração e o desejo que tumultuam sua consciência nos parágrafos que antecedem o fim, tudo se congrega para criar um personagem excepcional.

Quando as seguranças de Gabriel desmoronam, não é apenas o clima de paixão e expectativa sensual que se quebra, mas a própria vida, obrigando-o a reconhecer que este mundo também pertence aos mortos — e que temos pouco ou nenhum poder sobre eles.

Se “Eveline” possui as características de uma cutilada fatal, “Os mortos” é uma lenta prostração, um derreamento que conduz seu protagonista à completa incerteza.

Outro conto que nunca sai de minha memória é (3) “Brincadeira”, de Anton Tchekhov, o primeiro que li desse russo genial, na tradução de Tatiana Belinky. No “claro dia de inverno”, a narrativa se abre numa sucessão de tons — a “prata cintilante”, o branco da neve, a luz solar refletindo-se em tudo —, apenas para dar ainda mais vida ao pano carmim que forra o trenó.

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Anton Tchekhov

Pobre Nadiejda Petrovna, sutilmente assediada pelo narrador, um brincalhão dividido entre a futilidade e o sadismo. O trenó, sibilante, desce o morro alto, enquanto ela se ilude a ponto de enfrentar seu medo. E outra vez, e mais outra, apenas para ouvir a deliciosa mentira, deixando-se afogar no vício do amor que é apenas uma miragem invernal.

Perdida na incerteza de ter realmente escutado a declaração de amor, resta-lhe sonhar — mas sonhar para toda a vida. O presunçoso narrador fecha sua história com uma nota de tristeza, e jamais saberemos suas verdadeiras razões. Mas não importa. Nas poucas páginas, Tchekhov nos dá uma amostra das complexas relações humanas, do jogo, de suposta inocência, que se estabelece entre homem e mulher.

Ao final, tudo se dilui, temos a sensação de que eles continuam subindo e descendo o morro coberto de neve, pois esse jogo, esse estranho jogo no qual muitas vezes nos ferimos, é um jogo eterno.

O veludo da prosa de Mário de Andrade está todo em (4) “Será o Benedito!”. Em poucos parágrafos, Mário ensina como o belo despreza afetações.

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Mário de Andrade

Hospedando-se, durante alguns dias, na fazenda de um conhecido, o narrador estabelece amizade com um garoto — “o negrinho era quase só pernas, nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo”.

A princípio acanhado, o menino sequer enfrenta o olhar do homem da cidade; e reage de maneira imprevista, disparando propriedade afora: “Deu uma risada quase histérica, estalada insopitavelmente dos seus sonhos insatisfeitos, desatou a correr pelo caminho, macaco-aranha, num mexe-mexe aflito de pernas, seis, oito pernas, nem sei quantas, até desaparecer por detrás das mangueiras grossas do pomar”.

O trecho acima é bom exemplo do estilo de Mário: o encadeamento das frases, pontuadas por escolhas lingüísticas precisas — “macaco-aranha”, “mexe-mexe”, a repetição do substantivo “pernas” —, dá vida à correria do garoto.

Campo e cidade, rural e urbano, são elementos em permanente desacordo nessa narrativa. O menino tem na cidade a sua “única obsessão” — e o narrador lhe apresenta a vida urbana, repetidamente, como símbolo do mal e da morte. O narrador, aliás, é taxativo sobre os malefícios da urbe: magro como é, o garoto morreria, com certeza, de tuberculose.

Resignado, “com profunda melancolia”, o garoto aceita permanecer na fazenda. O narrador parte. Duas semanas depois, uma carta anuncia a morte do menino, vítima “de um coice de burro bravo que o pegara pela nuca”. A última frase do texto revela, então, o porquê da narrativa: “É o remorso comovido que me faz celebrá-lo aqui”.

História tristíssima, como se vê. A inexorabilidade do destino apresenta-se com terrível desfaçatez: tentando preservar a criança em seu locus amoenus, o bondoso protetor na verdade a condena. O azar se impõe como resultado das boas intenções — e o inocente é lançado ao precipício.

A injustiça iminente, aliás, já havia sido antecipada pelo narrador, quando, diante das histórias de arranha-céus, cantores de rádio e chauffeurs, ele diz que “Benedito me mostrava os dentes do seu riso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam numa brancura sem par”.

A resignação do narrador não só fecha a tragédia, mas a complementa: o que fazer diante de seu erro involuntário, a não ser experimentar, em silêncio, o vazio? Muitas vezes, o terror que o trágico impinge ao homem sequer lhe dá o direito de se desesperar.

Impossível não descobrir certa ironia no fato de a história ter sido publicada em uma coleção infanto-juvenil da Cosac Naify. Não se tratou, contudo, de escolha errada. Ao contrário, crianças e jovens devem ser introduzidos aos mistérios do trágico, esse caráter indissociável da vida. E se for pelas mãos de Mário de Andrade, tanto melhor.

Também aprecio reler Leonardo Sciascia. Siciliano apaixonado por Stendhal — aliás, da mesma forma que Lampedusa, também nascido na Sicília —, Sciascia escreveu, dentre outros, o bem-humorado (5) “A remoção”.

Usando de ironia, Sciascia coloca no mesmo patamar a fé cega de Filomena e a de seu marido, o comunista Michele Tricò. Este cobre a mulher de injúrias por ela participar de uma manifestação contra a retirada da imagem de Santa Filomena da igrejinha local, pois o Vaticano, após longos estudos, concluiu que a santa jamais existira.

Ainda acusando a esposa de ignorante, Michele senta-se para ler o L’Unità, órgão oficial do Partido Comunista Italiano, quando descobre, logo na capa do jornal, a notícia de que iriam remover a múmia de Stalin de seu mausoléu. Num rompante de indignação, o comunista age da mesma forma que sua mulher, movido pela fé infantil. A justaposição das duas personalidades resulta numa história hilariante — e o resultado, a crítica de Sciascia, fere de morte os fanatismos.

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Leonardo Sciascia

Mas há outro Sciascia, ainda melhor: (6) “O mar cor de vinho” é história marcada de lirismo melancólico, na qual certo engenheiro, próximo dos 40 anos, descobre o amor numa viagem de trem à Sicília.

Um casal de professores e dois filhos pequenos, que viajam com o protagonista na mesma cabine, despertam sua afeição à vida familiar; e ele, lentamente, deixa-se invadir pela beleza triste da jovem que acompanha o casal. “Uma viagem é como uma representação da existência, pela síntese, pela contração de espaço e tempo; enfim, um pouco como o teatro: e nela se recriam inteiramente, com um fundo de ficção inesperado, todos os elementos, as razões e as relações da nossa vida”, raciocina o engenheiro.

Todos esses sentimentos vão se intensificando no transcorrer da longa viagem, atingindo seu clímax diante da visão do mar de Taormina, que o menino Nenè, maravilhoso personagem, debochado e inteligente, compara ao vinho. O inusitado da figura completa o feitiço que toma o engenheiro.

Ao final, dividido entre o amor, a timidez, a repentina paixão e o freio que a maturidade impõe aos instintos, ele se sabe vítima de um sentimento do qual não poderá fugir — o que não o entristece, mas também não o alegra completamente.

Assim, Sciascia nos oferece uma delicada e prazerosa viagem, não à Sicília, mas em meio a essa “contração de espaço e tempo” que é o conto magistral, sem defeitos.

Para finalizar estes contos extraordinários, um de meus preferidos, (7) “A tortura pela esperança”, de Villiers de L’Isle Adam.

Basta o parágrafo inicial para que o leitor seja aclimatado, pois os elementos essenciais estão todos ali: o esterco, as manchas de sangue, os sons típicos da masmorra; e nesse ambiente pestilento, o algoz e sua vítima. Quando o primeiro fala, o que para nós soa como cinismo, para ele resume-se à expressão sincera de sua fé, fato que só aprofunda nossa repulsa.

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Villiers de L’Isle Adam

O conto é uma lição de economia de recursos: o cenário, a cela e um corredor alongado graças ao efeito semelhante que, no cinema, Hitchcock imortalizou; dois personagens centrais — e os restantes, sombras, passos, um olhar aterrador; o tempo, a eternidade nascida da esperança e do medo.

Com hábil sadismo, o narrador nos arrasta em direção à porta de saída, alimentando e destruindo nossa expectativa. Ao final, quando descobrimos que não há maior horror do que o provocado pelo próprio homem, essa mesma voz ainda nos reserva detalhes hediondos: as pontas do cilício, certo olhar — e o hálito mais repugnante que alguém pode sentir.