10 livros que mudaram minha vida

De Euclides da Cunha, 1. Os Sertões foi o primeiro livro que estudei com o olhar de leitor malicioso — não no sentido de “má índole”, o mais comum entre nós, infelizmente, mas no sentido de “astúcia”, “sagacidade”. A motivação veio de Paulo Vieira, meu professor de português no velho Instituto de Educação, em Jundiaí. Quando comecei “A Terra”, tive uma vertigem: aquilo era incompreensível — o livro exigia muito mais que um dicionário constantemente aberto ao mOs Sertoes 10 livros que mudaram minha vida rodrigo gurgeleu lado. Foi, aos 17 anos, o primeiro lampejo de que as melhores obras literárias estão além, muito além do que o leitor inocente vê no seu contato superficial, passageiro. Ir e voltar pelas páginas, descobrir a musicalidade que a linguagem pode alcançar, sentir que aquele livro estava além dos meus conhecimentos — tudo me impulsionava a ir adiante, a perseverar.

john keats 10 livros que mudarm minha vida rodrigogurgelDescobri 2. John Keats de forma inesperada. Era o primeiro dia de aula na universidade. E a primeira aula do primeiro dia. Meu professor de Teoria da Comunicação, Flávio Vespasiano Di Giorgio, tirou o maço de Continental sem filtro do bolso rasgado da camisa, acendeu um cigarro, sentou sobre a mesa e, olhando para o vazio, agitando um pouco no ar seus dedos manchados de nicotina, começou: “A thing of beauty is a joy for ever…”. Quando terminou, o feitiço estava lançado: manhã após manhã eu tentaria me vincular à terra, apesar do desespero, dos dias escuros e de todas as dúvidas que pudessem existir na minha alma. Desde aquele dia, não passa um semestre sem que eu releia o “Endymion” ou algum outro poema de Keats. Minha fascinação por ele foi semelhante à do próprio Keats por Homero: era como se eu tivesse descoberto um novo planeta.

Foi também Flávio Vespasiano Di Giorgio quem me despertou para Drummond. Em algum momento daquele primeiroclaro enigma 10 livros que mudaram minha vida rodrigo gurgel semestre, interrompeu, como sempre fazia, seu raciocínio e começou a declamar “Campo de flores”. Comprei 3. Claro enigma depois da aula. E descobri “Tarde de maio”, “Remissão” — nada resta do que escrevemos, “senão contentamento de escrever”. E se busco “o fim sem a injustiça dos prêmios”, também me pergunto, até hoje, “Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”.

a morte de virgilio 10 livros que mudaram minha vida rodrigo gurgelO início de 4. A Morte de Virgílio capturou-me: “a solidão do mar, ensolarada e todavia prenunciadora de morte”. Eu não sabia que a visão da armada imperial a cruzar o Adriático me levaria mais longe do que qualquer outro romance que eu tivesse lido. Com Broch descobri que a ficção não precisava estar presa aos temas comezinhos da literatura brasileira, às historinhas pérfidas, a permanentes universos mesquinhos, restritos à pelada no fim de semana, à libido insatisfeita, aos subúrbios, a casos de adultério e existências rasteiras.

5. Lorde Jim e 6. A fera na selva confirmaram Broch. A grande literatura está muitos degraus acima delorde jim 10 livros que mudaram minha vida rodrigo gurgel Capitu, Peri e Ceci, ou eternos retirantes esfaimados sem nenhuma dúvida interior. Conrad e James me mostraram que a grande batalha encontra-se no centro do nosso coração — essa é a única história sempre recontada. Sem o duelo permanente que ocorre na nossa consciência, a banalidade se instala na ficção a fera na selva 10 livros que mudaram a minha vida rodrigo gurgel— e é vendida aos incautos como o melhor realismo.

Em algum momento da década de 1970 comprei 7. Raízes da Criação Literária, de Edmund Wilson. Foi meu primeiro contato com uma crítica literária consistente, jamais sufocada pela erudição. Ao contrário, a erudição servia para tornar o texto sedutor, as idéias eram colocadas de forma clara — e o autor realmente dialogava com os livros. Ter lido um ensaio como “Filoctetes: a chaga e o arco” vacinou-me, percebi anos mais tarde, contra o estruturalismo ou a semiótica. Wilson foi o filtro que impediu minha contaminação completa. Na faculdade, forçado a me empanturrar com os textos tediosos de Roland Barthes, eu mantinha Wilson como uma referência lúcida, equilibrada.raizes da criacao literaria 10 livros que mudaram a minha vida rodrigo gurgel

A análise que Mario Vargas Llosa faz de Madame Bovary, em 8. A orgia perpétua, confirmou o que eu intuíra ao ler Wilson: na análise de um texto, era possível o detalhamento, digamos, quase científico, mas sem a orgia perpetua 10 livros que mudaram minha vida rodrigo gurgelmatar a obra, sem transformá-la num esquema, numa árvore de análise lingüística, sem endeusar a linguagem, sem desvincular a obra da realidade. Llosa me ensinou ainda mais: mostrou-me que o hermetismo das vanguardas, seu suposto espírito revolucionário, era um engodo. E por um simples motivo: o bom escritor carrega a ira de Flaubert — a ira que o salvou do “esteticismo hermético”. Essa ira, muitas vezes contra a própria humanidade, “infundiu em seus livros o vírus negativo que é o segredo da sua acessibilidade: para que um romance provoque dano é imprescindível que seja lido e entendido”.

Se Edmund Wilson me vacinou contra os estruturalistas, Olavo de Carvalho me vacinou contra o marxismo e a intelectualidade materialista, hedonista e cética que pontifica na mídia e na universidade brasileiras. Depois de ler 9. O o imbecil coletivo 10 livros que mudaram minha vida rodrigo gurgelimbecil coletivo ainda militei anos na esquerda, mas o pensamento de Olavo permanecia — desculpem-me o chavão — como uma ilha de lucidez. Fazia com Olavo o que o diretor do Gabinete de Leitura Ruy Barbosa, em Jundiaí, fazia com Lênin nos anos duros da ditadura militar: guardava-o num armário bem fechado, em algum ponto sombrio da biblioteca. Eu me debatia com meus próprios pensamentos; repleto de dúvidas, observava a vida e meu trabalho seguirem destituídos de sentido. Ao mesmo tempo, percebia a tremenda incompatibilidade que havia entre o discurso dos “companheiros” e sua prática cínica, aética.

O Imbecil coletivo e tantos outros artigos de Olavo somaram-se a Isaiah Berlin — e então livrei-me do coscorão esquerdista. Olavo e Berlin foram meus guias no processo de rompimento definitivo não apenas com uma forma de pensar, mas com uma forma de viver. Ambos são intelectuais completos. Minha leitura de Berlin começou por seu ensaio “O ouriço e a pensadores russos 10 livros que mudaram minha vida rodrigo gurgelraposa”, em 10. Pensadores russos, aula de crítica literária e cultural.

Foi um longo processo. Olavo de Carvalho e Isaiah Berlin ajudaram-me a abraçar aquelas verdades que sempre estiveram à mão, obscurecidas pelo meu esquerdismo. A primeira delas, a mais banal, é que justiça e liberdade jamais foram bandeiras exclusivas da esquerda. Aliás, a esquerda tem se notabilizado na história exatamente por, chegando ao poder pela via revolucionária, trair esses ideais.

Mas o que Olavo de Carvalho e Isaiah Berlin me oferecem não se resume a desacreditar do marxismo. Seria muito pouco para dois pensadores excepcionais. Eles me fazem refletir, como os outros livros que mudaram minha vida, sobre a existência, a literatura, a condição humana — e cada página deles acrescenta algo à minha Weltanschauung.



  • Luan Assis

    Olá, professor
    Tenho 17 anos, e percebo que essa idade também me vem despertando um maior senso crítico. De repente, estou relendo muita coisa, libertando na mão de amigos e no sebo uma série de livros insignificantes, e me sentindo burro pra caramba. Aceito indicações de leituras para essa idade tribulada (nada de Brás Cubas e suas intermináveis citações do século XIX, por favor).
    Abs

    • Joseph Conrad, Anton Tchekhov, Isaac Babel.

      • Luan Assis

        Obrigado! 🙂

      • Luan Assis

        Estou lendo Lorde Jim, do Joseph Conrad. A narração da novela me parece bem maçante, com as ações escondidas de uma forma sutil em meio a toda abstração. Estou bem frustrado por um livro tão curto estar “vencendo-me”. Se eu me esforçar para terminar, não vou aproveitar as nuances da obra; insistir na leitura em casos como esse é vantajoso?

        • Não insista. Leia outras coisas. Deixe passar alguns meses e então retorne ao romance. E continue insistindo, ainda que de forma oblíqua.

  • Felipe

    Mestre Rodrigo, você recomenda o livro ” A arte da Ficção” de John Gardner ou teria algum melhor no assunto?

  • Cris Zanf

    Olá, Professor!

    Sou sua aluna na oficina de crônica pela Kátedra. Fiquei de enviar o link do post em que lhe fiz um singelo agradecimento. O senhor solicitou que eu o fizesse pelo Facebook, mas após inúmeras tentativas fracassadas, acabei por fazê-lo aqui. Eis o link: https://maniadecitacao.wordpress.com/2015/07/24/grandes-autores/

    Agradeço, desde já, pelo tempo que dispensará à leitura. Agradeço também pela excelência de suas aulas!!
    Abração,
    Cris M. Zanferrari

    P.S.: Tenho acompanhado seu blog e, consequentemente, minha lista de livros a ler só faz aumentar! Obrigada por tantas indicações!

  • Olá, Eduardo. Não, não há uma seqüência correta. Aliás, acho que, no seu caso, uma leitura assim ou uma lista só de clássicos desembocariam em experiências maçantes — e você se afastaria novamente da literatura. Sugiro outro começo. Livros mais leves — e bem escritos. Por que você não começa pelo
    Patrick O’Brian? Não sei se você gosta de aventuras, mas é um ótimo autor. Leia “Master and Commander”, que no Brasil foi traduzido como “Mestre dos Mares”. Depois, gradativamente, você pode ir subindo na escala de qualidade. Um abraço.

    • Eduardo

      Vou começar hoje mesmo! Obrigado pelas dicas.