escrita e criatividade

6 dicas de escrita e criatividade

Desenvolvi, em meu último texto, algumas reflexões a respeito do caminho que leva à criatividade. E mostrei como o treino constante de uma nova forma de olhar, para si mesmo e para a realidade, faz o escritor abandonar suas rotinas mentais, o que lhe permite estabelecer novas conexões — algumas vezes, entre elementos que, antes, pareciam díspares ou inconciliáveis.

Continuando a refletir sobre escrita e criatividade, quero salientar 6 pontos que me parecem essenciais no trabalho do escritor:

1. Dedicar-se ao ócio

O trabalho criativo demanda tempo — e, portanto, uma forma especial de ócio, que não é a completa ausência de perturbações ou inquietações da mente. Ao contrário, o corpo pode passar a idéia de inatividade, mas a mente trabalha de forma profusa.

O ócio é necessário porque nem sempre a primeira idéia é a que frutifica — e o escritor precisa aprender a controlar a incerteza, esse animal indócil que sempre o rodeia.

O intervalo de aparente inação varia de escritor a escritor. Você deve, portanto, encontrar o seu próprio tempo, desde que isso não signifique uma desculpa para se entregar à preguiça.

2. Aceitar os ciclos

Na busca para encontrar seu próprio tempo, você descobrirá como escrever é fatigante. Às vezes, engolfados por um fluxo intenso de trabalho, não percebemos o quanto ele nos desgasta, mas a maré baixa chegará — e lembraremos, então, do narrador de Morte em Veneza, que, logo nas primeiras páginas, descreve o trabalho de Gustav Aschenbach:

Superexcitado por uma manhã de trabalho árduo e arriscado, a exigir justamente agora uma extrema cautela, circunspecção e força de vontade, o escritor não conseguira, nem mesmo após o almoço, sofrear a vibração do mecanismo criador em seu íntimo — aquele “motus animi continuus” que, segundo Cícero, constitui a essência da eloqüência — e não pudera dispor do cochilo reparador que lhe era tão necessário durante o dia, frente ao crescente desgaste de suas forças.

Trabalho que, páginas à frente, o narrador descreve como uma “luta enervante, a cada dia renovada, entre sua vontade tenaz e orgulhosa, tantas vezes posta à prova, e esse cansaço crescente, de que ninguém devia suspeitar e que nenhum indício de fraqueza ou negligência no produto acabado deveria trair”.

escrita e criatividade

Podemos sempre aprimorar a relação entre escrita e criatividade.

Ocorrerão, assim, inevitáveis períodos de descanso. Mesmo durante eles, entretanto, você deve ter certeza de que quanto mais o escritor se agita em meio aos esforços do trabalho, mais a inspiração surge.

3. “Estar completamente presente”

Durante o ócio ou nos períodos de intensa atividade, o fundamental é “estar completamente presente”. O conselho é do crítico e poeta norte-americano Mark Van Doren:

Existe algo que podemos fazer, e as pessoas mais felizes são aquelas que conseguem fazê-lo no limite máximo de sua capacidade. Nós podemos estar completamente presentes. Podemos estar inteiros aqui. Podemos… dar toda a nossa atenção à oportunidade que está diante de nós.

O passado e o futuro deveriam ser estranhos para nós. Você precisa se colocar inteiro no que está fazendo. Só agindo assim poderá extrair do presente todas as potencialidades que ele oferece. É ele — e só ele — que pode lhe conceder habilidades inesperadas, idéias e novos conhecimentos.

4. Lutar contra o medo

A superação do medo é um exercício sem fim. Por trás da nossa mente há um juiz incansável que fica nos sugerindo o que as pessoas dirão ou pensarão sobre o nosso trabalho.

Aceitar esse eterno censor é o primeiro passo para saber utilizá-lo em seu benefício. Ele não é de todo mau, se pensarmos em quantas idiotices esse juiz nos impede de escrever. O escritor que não tem nenhuma censura é também o escritor que não possui autocrítica.

Trata-se, portanto, de aceitar a sentença do juiz — mas pelos motivos corretos. E, entre estes, não se encontra a opinião dos outros.

É preciso aprender, também, a conviver com o desconforto que certas idéias causam, com o desânimo, com a dúvida, com pensamentos que vão e voltam, irrequietos, muitas vezes prontos a nos colocar diante de decisões angustiosas, labirínticas.

5. Criar disciplina

Encontrar sua própria disciplina de trabalho é libertador.

Diferente do que muitos pensam, caos gera caos. Todos os grande escritores encontram a sua própria rotina, um pequeno nicho de segurança e de relativo aconchego no qual a criatividade flui.

O escritor precisa ter uma hora marcada para o encontro consigo mesmo. Precisa ter o seu ambiente, as suas manias, as suas pequenas formalidades.

Aceite suas idiossincrasias — faça com que elas trabalhem para você.

6. Unir tecnologia à produtividade

A disciplina aumenta nossa produtividade. Mas podemos aprimorar ainda mais a relação entre escrita e criatividade. Podemos somar à nossa rotina o aparato tecnológico que está à nossa disposição.

O desenvolvimento do computador pessoal não cansa de criar ferramentas úteis para o escritor. Falando de minha própria experiência, seria muito difícil trabalhar sem a ajuda de quatro escravos fiéis: Scrivener, um completo, perfeito processador de texto, que transforma o Word numa ferramenta pré-histórica; Evernote, que me permite anotar e colher informações em todos os lugares e sincroniza essas notas, tornando-as disponíveis no desktop, na web e no celular; Freedom, que me liberta, durante o tempo que necessito, da urgência e dos apelos da web e das redes sociais; e Things, um gerenciador de tarefas que esvaziou minha mente de uma infinidade de tarefas.



'6 dicas de escrita e criatividade' have 7 comments

  1. 5 novembro, 2015 @ 21:41 André Tadei

    Olá, Rodrigo! Poderias lançar um livro com dicas e alguns métodos para nos ensinar sobre a arte de escrever.

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  2. 6 novembro, 2015 @ 16:21 Duke

    Tecnologia cada um tem uma dica, a minha é o https://writer.bighugelabs.com/ , fiquei impressionado com o poder dele.

    Acho que a sensação mais terrível que um escritor passa – especialmente do campo político como eu que tem de construir argumentos em defesa de causas impopulares – é se as idéias vão ser compradas, se vão frutificar, se o que você escreveu é bom o suficiente para ser lido daqui a 100 anos e se as pessoas se interessarão pelo que você disse a 100 anos atrás.

    É a mesma sensação do primeiro homem a abrir uma farmácia: os remédios são amargos, alguns doloridos, as pessoas só vão comprar quando tentaram todo o resto e estão desesperadas à beira da morte. E algumas mesmo tomando irão morrer, mas ao menos você sabe que eles funcionam, mesmo que seja só você.

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    • 7 novembro, 2015 @ 1:29 Rodrigo Gurgel

      Ótima sugestão de aplicativo, Charles! Quanto à sensação terrível, você está certo: temos sempre de atravessar a bruma. A cada texto.

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  3. 19 dezembro, 2015 @ 22:43 Hugo Cravo

    Professor, ultimamente tenho enfrentado um problema difícil de resolver: não sei identificar o meu limite. Por mais que eu estude e leia, se paro e descanso, sinto culpa. Parece que tenho a obrigação de produzir o tempo inteiro. Tenho perdido a capacidade de relaxar. Como identifico meu limite? Como distinguir preguiça de merecido descanso?

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    • 23 dezembro, 2015 @ 12:37 Rodrigo Gurgel

      Olá, Hugo. Eu não sentiria culpa. Ao contrário, produziria ainda mais. Para muitos — e me incluo entre eles — o melhor descanso é ainda mais trabalho. Mas produza pelo prazer de produzir, não por obrigação. Forte abraço!

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    • 31 dezembro, 2015 @ 11:56 Luciene de Morais

      Se você me permite sugestão, Hugo, aceite o ciclo. Para muita gente as fases são longas e intensas. Essa, que você está, que poderia se chamar “Rigor”, pode parecer (e é) extenuante e sacrificante, mas muito produtiva. Aproveite-a. Quando acabar e até que retorne, sentirá saudade dela, e não por desejo de dor, mas pela falta que faz na realidade prática.

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