Duas formas de amar Stendhal

Duas formas de amar Stendhal

Leonardo Sciascia e Giuseppe Tomasi di Lampedusa representam duas formas de amar Stendhal. Não deixa de ser curioso que esses dois sicilianos, diferentes em tudo — origem social, preferência política, estilo — tenham admirado o mesmo escritor. Mas não há explicações racionais para o amor.

Lampedusa tinha predileção pela França. Segundo um de seus biógrafos, David Gilmour, o escritor possuía, em sua vasta biblioteca, só na área de história, mais de mil volumes dedicados a esse país. No que se refere à literatura, apreciava Montaigne, Ronsard e outros, mas o dono de seu coração era Stendhal.

Tomasi di Lampedusa

Tomasi di Lampedusa

Durante seus cursos de literatura, Lampedusa criou o que Francesco Orlando, aluno do escritor, chama de “distinção empírica entre os escritores”, classificando-os de “grassi” (gordos) e “magri” (magros). Os primeiros expressam todos os aspectos e matizes do que escrevem, liberando o leitor da responsabilidade de deduzir e compreender o que o narrador efetivamente diz. É o caso de Balzac, por exemplo, ou de Proust.

Os magros, contudo, devem ser lidos assumindo-se a responsabilidade de destrinçar as informações sucintas que são transmitidas, cujo sentido se revela apenas quando se estabelece uma relação de cumplicidade entre leitor e escritor. Nestes, o que não é dito tem, muitas vezes, mais relevância do que as informações explicitadas. Exemplos de magros seriam Mallarmé, Racine, Chordelos de Laclos — e Stendhal, que, segundo Lampedusa, “escrevia para os happy few dotados de intuição e não para os que necessitam de explicações”.

De início apaixonado por O Vermelho e o Negro, Lampedusa mudaria de idéia, passando a preferir A Cartuxa de Parma, sobre o qual afirmava ter sido “escrito por um ancião para anciãos” e que “é preciso ter passado dos quarenta anos para entendê-lo; então se vê que esse livro despojado de ambições artísticas, quase despojado de adjetivos, nostálgico, irônico, contido e suave é o ponto mais alto da narrativa mundial”.

Leonardo Sciascia

Leonardo Sciascia

Sciascia, no entanto, discordava de Lampedusa. Em uma deliciosa compilação dos textos dedicados a Stendhal, publicada pela Adriana Hidalgo Editora, de Buenos Aires, lemos que, na opinião de Sciascia, as três principais obras de Stendhal — O Vermelho e o Negro, A Cartuxa de Parma e o autobiográfico Vida de Henry Brulard — representam “os graus de ascensão do stendhalismo”.

Analisando como os leitores avançam nessa gradação de preferências, Sciascia conclui que se Lampedusa tivesse vivido mais alguns anos, certamente passaria a preferir o Brulard. E termina suas digressões com uma leve estocada: “Stendhal nunca foi ‘ancião’ e tampouco o serão seus leitores. Ainda que tenham noventa anos”.

A paixão de Sciascia, no entanto, é mais contida que a de Lampedusa. Ele chega a dizer que, durante sua vida, lembra-se de ter usado o adjetivo adorável apenas duas vezes: “a uma mulher e a um escritor — Stendhal”. Quanto a Lampedusa, este usa “adorável”, segundo Vincenzo Consolo, três vezes para se referir a Stendhal.

Duas formas de amar Stendhal, sem dúvida.