Há inúmeras formas de escrever bem

A história da literatura prova que há inúmeras formas de escrever bem, mas não há uma receita única. Na verdade, aprender a escrever bem — sem copiar o estilo de outros escritores, mas permitindo que a sua própria voz aflore — é trabalho de uma vida inteira. Leiam os diários ou a correspondência dos grandes escritores — e vocês descobrirão que, mesmo depois de serem famosos, eles sempre se sentiram insatisfeitos, em alguma medida, com o próprio trabalho.

A receita única não existe inclusive porque, muitas vezes, um escritor é magnífico… com as suas imperfeições, ainda que pequenas. Inúmeros autores encantam à primeira leitura, mas depois, à medida que vamos conhecendo sua obra, quando nos tornamos íntimos dele, começamos a descobrir o que nos desagrada, o que não convence, o que cansa — quase sempre, a repetição de uma fórmula que parece surpreendente nas primeiras leituras, mas depois torna-se mera repetição. Nem mesmo os maiores gênios conseguem se reinventar a cada livro.

escrever bem

Quando o escritor se coloca, solitário, diante do papel em branco, o que deve prevalecer é a certeza de que, se milhares de escritores antes dele conseguiram produzir beleza e transmiti-la aos leitores, então a linguagem pode continuar sendo trabalhada — ela merece nossa confiança.

Por esse motivo, a chamada “originalidade” não é a solução caída dos céus. Nenhum escritor senta-se à escrivaninha e, antes de começar a escrever, pensa: “— Preciso ser original”. O que o verdadeiro escritor busca é a sua própria voz — e que sua voz seja eficaz, que provoque no leitor o que ele (autor) imaginou, desejou transmitir; que ela desperte emoções.

Mas é preciso cuidado: não se trata, como ensinava minha professorinha primária, de “florear”. Ter sua própria voz, ter um estilo não significa ornamentar o discurso. Da mesma forma que não se trata de não ter nenhuma ornamentação — no sentido de que não se trata de ter um texto impessoal.

Ter sua própria voz, ter um estilo, é apresentar a sua forma particular de ver a realidade — e isso se conquista não apenas escrevendo sempre, mas com leitura — leitura lenta, estudada — e maturidade.

Quem é você? Como você vê o mundo? Quais os seus valores? Em que você realmente acredita? Se você não tem respostas para essas questões, não será uma gramática ou um conjunto de regrinhas que ensinará você a escrever.

Leia um escritor como Graciliano Ramos — seus romances, suas memórias, as melhores entrevistas — e você concluirá que, por trás do estilo que dá vida a “São Bernardo”, há um homem maduro, seriedade, há uma visão de mundo. Nas entrelinhas de Graciliano vibra o desejo sincero de conhecer e de compreender o mundo — e não, como muitos fazem hoje, o desejo infantil de negar a realidade.

A linguagem merece nossa confiança

O escritor não pode obedecer a modelos ou receitas, ainda que deva se inspirar em bons escritores. Vejo muita gente gritando “Originalidade! Originalidade!” — e quando vou ler o resultado de tanta “originalidade”, encontro apenas iconoclastas que desconfiam da linguagem, que escrevem como se fossem gagos, que não usam palavras ou frases, mas sinais de trânsito.

escrever bem

Nas entrelinhas de Graciliano Ramos vibra o desejo sincero de conhecer e de compreender o mundo — e não, como muitos fazem hoje, o desejo infantil de negar a realidade.

O ceticismo em relação ao poder da linguagem é um bom tema para piadas na mesa de bar, mas quando o escritor se coloca, solitário, diante do papel em branco, o que deve prevalecer é a certeza de que, se milhares de escritores antes dele conseguiram produzir beleza e transmiti-la aos leitores, então a linguagem pode continuar sendo trabalhada — ela merece nossa confiança. No mínimo, pela forma como assegura nossa sobrevivência.

Portanto, não transforme seu texto num amontoado de experimentos vazios. Não faça como os vanguardistas, que primeiro estipulam regras e depois passam a vida presos numa camisa de força — ou, pior, divertindo-se em prender os outros nas mesmas fôrmas.

Escritores que obedecem a manifestos ou teorias têm uma linguagem curiosa — e um discurso vazio. Algo semelhante àqueles textos que você lê, acha excêntricos e… se sua professora de semiótica não explicar o que, supostamente, o autor pretendeu dizer, você passará a vida inteira se perguntando qual o sentido daquilo. É como encontrar, num zoológico, um animal híbrido, mera invenção genética, sem nenhuma função no ecossistema, a não ser comprovar sua própria inutilidade.

Receitas prontas e experiências vanguardistas sempre resvalam para uma sintaxe uniforme, repetitiva, monocórdia — e, sem variação, a literatura está morta.