escrever é um ato de coragem

Por que escrever é um ato de coragem?

A história do romancista John Kennedy Toole, autor de A Confederacy of Dunces, mostra que escrever é um ato de coragem, em vários sentidos.

Hoje apregoa-se, de forma exagerada, a coragem do escritor que rompe com as formas tradicionais de narrativa e transforma seu

escrever é um ato de coragem

John Kennedy Toole

texto num labirinto cujo objetivo, quase sempre, se resume a oprimir o leitor, dificultar a leitura a qualquer preço. Trata-se de uma visão superficial de coragem — que produz, na imensa maioria dos casos, livros desastrosos.

Escrever é um ato de coragem por motivos mais profundos, mais sérios. E nem todos estão preparados para a luta que não se restringe ao processo criativo.

A coragem de John Kennedy Toole durou enquanto ele escrevia seu livro — mas diante da recusa dos editores, certo de que produzira um romance surpreendente, ele sucumbiu na depressão que o levou ao suicídio em 1969.

É claro que os motivos do suicídio são mais complexos do que a decepção por não conseguir publicar o livro, mas também é verdade que o elemento desencadeador foi a recusa da Editora Simon & Schuster, meses depois de ter acenado com a possibilidade de publicação.

Os novos escritores devem ler a correspondência entre Toole e o editor Robert Gottlieb como um convite à persistência — se é que eles realmente acreditam na qualidade do seu trabalho. O jogo de tenacidade e convencimento que a edição de um livro exige pode ser tortuoso, cansativo, principalmente quando o autor é um novato ou não dispõe do auxílio de pessoas influentes.

O romance de Toole seria publicado apenas em 1980, graças à insistência de sua mãe. Ela enviou o original a sete editoras — e recebeu sete recusas. Por fim, perseguiu o romancista Walker Percy até que ele, apesar da relutância, se dispôs a ler o original — e se apaixonou pelo livro.

escrever é um ato de coragemJohn Kennedy Toole estava certo a respeito da qualidade do seu trabalho: A Confraria dos Tolos lhe concedeu, postumamente, em 1981, o Prêmio Pulitzer de ficção. A obra foi traduzida em duas dezenas línguas, com mais de 1 milhão e meio de cópias vendidas.

Escrever é um ato de coragem

Escrever exige coragem desde o momento em que você começa a imaginar sua história. Desde as primeiras idéias, o escritor precisa se questionar a respeito de quanto ele se distancia dos lugares-comuns, de quanto recusa soluções referendadas pelo academicismo ou por panelinhas, ainda que famosas.

Não se trata de buscar a inovação gratuita ou de escrever movido pelo desejo de escandalizar — mas, sim, de abrir-se a um trabalho sincero e sólido de autoquestionamento.

Nem sempre a primeira idéia — às vezes aparentemente genial — é a melhor. Ao contrário, o brilho de certas idéias pode ocultar raízes fincadas em estereótipos, no senso comum, em recursos batidos e artificiais, inclusive das próprias vanguardas.

O exercício da escrita requer igual destemor. Exige que você descubra, sob cada elemento da narrativa, o que ele oferece de novo, de inesperado; como ele dialoga com a realidade, com a experiência humana; e de que maneira reflete exatamente o que você deseja expressar.

escrever é um ato de coragem

Supondo que você alcance o ponto final da narrativa, estará preparado para ser seu melhor crítico? Estará pronto para cortar, acrescentar, alterar e reescrever sem autocomiseração? Aqui também a ousadia faz toda a diferença.

Nesse momento, não se trata de inspiração ou de criatividade, mas de domínio técnico, de disposição para o trabalho cansativo, no qual, enquanto a narrativa cresce, o autor descobre seus limites e se dispõe a reaprender com eles. A luta diária pela expressividade não é para os que desistem.

E, supondo que você alcance o ponto final da narrativa, estará preparado para ser seu melhor crítico? Estará pronto para cortar, acrescentar, alterar e reescrever sem autocomiseração? Aqui também a ousadia faz toda a diferença.

Por fim, você precisa ir além do que John Kennedy Toole conseguiu. Ainda mais num sistema literário fraco e incipiente como o brasileiro, no qual as revistas especializadas inexistem — e, quando existem, não conseguem pagar seus colaboradores. Um sistema em que, com raras exceções, prevalece o compadrio e não o real valor dos escritores. Em que escasseiam bons agentes literários e editores profissionais. Em que a ideologia esquerdista contamina grande parte das escolhas editoriais. Um sistema no qual o autor não tem quem o defenda e só pode contar com sua própria persistência, com sua própria coragem.



'Por que escrever é um ato de coragem?' have 5 comments

  1. 20 novembro, 2015 @ 22:35 Rodrigo Gurgel

    Os persistentes vencerão, Geraldo. Fico feliz por saber que os exercícios estão ajudando! E obrigado por estar sempre aqui, oferecendo a todos nós os seus comentários. Forte abraço!

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  2. 20 novembro, 2015 @ 22:37 Rodrigo Gurgel

    O que posso dizer, Neiva, com absoluta certeza, é que sempre haverá espaço para boa literatura, para bons contadores de histórias. As fórmulas cansam. Elas podem dar certo durante algum tempo, mas não sobrevivem. O que permanece são boas histórias, complexas como a própria vida.

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  3. 20 novembro, 2015 @ 22:37 Rodrigo Gurgel

    Obrigado, Samuel. Um abraço.

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  4. 21 novembro, 2015 @ 2:21 Geraldo

    ops! “Adrenalina “

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