Linguagem vulgar e mesmice: a lição de Karl Kraus

Das inúmeras afetações que se procura introduzir na literatura, uma das mais nocivas é a insistência em poluir o texto com linguagem vulgar.

Não me refiro ao estilo despojado de alguns autores ou àquela forma de escrever que simula o coloquial — pensemos, por exemplo, num diálogo de Hemingway —, mas às centenas de autores que insistem em escrever mal, mesmo quando seus personagens, por suas características sociais ou psicológicas, não estão impedidos de se expressar corretamente; mesmo quando seus narradores estariam livres para não utilizar uma voz falsamente popularesca.

linguagem vulgar

Certos autores escrevem como se houvesse uma correlação automática entre pensamento e palavras — e exatamente por isso só produzem mesmice.

Em alguns casos, esses escritores obedecem a estímulos ideológicos, pretendem criar uma literatura que represente determinados grupos sociais ou propagandeie as reivindicações de certos movimentos ou partidos políticos. Na maior parte das vezes, entretanto, o que encontro, ao analisar as justificativas apresentadas para se escrever mal, quando elas existem, são falsas ponderações estéticas ou políticas. E falsas por um único motivo: são tentativas de esconder o despreparo pessoal, o desconhecimento das possibilidades expressivas da língua, das regras mais simples de organização do pensamento, das formas da sintaxe e do léxico — e, claro, o temor, a insegurança que acompanha tal ignorância. Mesmo em relação à literatura, brasileira ou universal, esses autores apenas repetem os chavões que encontramos em manuais escolares ou apostilas de cursinho, o que comprova ainda mais minha teoria: eles não se esforçam para vencer a própria incultura, a instrução precária — e, de fato, muitos se orgulham disso. Mas ainda há outro comportamento censurável: seu indecente preconceito em relação aos grupos sociais que tencionam representar, pois acreditam que pessoas pobres se expressam, necessariamente, de forma errada ou desagradável. Para eles, o povo carece de um eterno professor Henry Higgins.

O modernismo brasileiro está repleto desse comportamento afetado que pretendia, nas palavras de Mário de Andrade, “grafar as inconsequências da fala popular”. Ou, como esbravejava Menotti Del Picchia na famosa conferência de 17 de fevereiro de 1922, “libertar a poesia do presídio canoro das fórmulas acadêmicas, dar elasticidade e amplitude aos processos técnicos, para que a ideia se transubstancie, sintética e livre, na carne fresca do Verbo, sem deitá-la, antes, no leito de Procusto dos tratados de versificação”. Trata-se da mesma afetação que encontramos em Fillippo Tommaso Marinetti — principal influenciador da Semana de Arte Moderna —, quando, em 1912, apontava a “inanidade ridícula da velha sintaxe herdada de Homero” e expressava seu “desejo furioso de libertar as palavras, tirando-as fora da prisão do período latino!”. 

Esse pedantismo persiste até hoje entre nós. Mas erramos se entendemos tais bobagens panfletárias apenas como tentativas de promover o escândalo. São, isto sim, expressões de vaidade e presunção — e também de relativa preguiça mental, pois qualquer curioso descobre, numa pesquisa rápida, que o grego utilizado por Homero, ainda que não expressasse o linguajar do povo, serviu à elaboração de uma obra que se tornou não só a base da educação literária grega, mas um “manual ético”, um tratado de “ética cavalheiresca”, como ensina Henri Marrou. A épica homérica, portanto, é, sim, uma criação artificiosa, um leito de Procusto — mas em que a humanidade se deita, há séculos, com encantamento e gratidão.

Karl Kraus e a carne do pensamento

Não há, portanto, nenhuma legitimidade, nenhuma autenticidade numa literatura que abusa da linguagem vulgar, da gíria, ou que compõe uma armadilha confusa para o leitor, repleta de pleonasmos, cacofonia e solecismos — uma literatura que não se diferencia da linguagem utilizada pelo jornalista cuja única responsabilidade é transcrever a fala banal de um traficante. 

Escritores desse tipo tratam a língua de maneira frívola, como se ela fosse um material facilmente manipulável, obediente, servil. Escrevem como se houvesse uma correlação automática entre pensamento e palavras — e exatamente por isso só produzem mesmice. São os diletantes de que fala Karl Kraus: “trabalham seguros e vivem satisfeitos”, já que desconhecem a angústia do verdadeiro escritor, derrotado pela língua, em alguma medida, todos os dias.

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Para Karl Kraus, “o perigo da palavra é o prazer do pensamento”.

A língua, para Kraus, “é a única quimera cuja capacidade de engano não acaba nunca; é o inesgotável que não empobrece a vida”. Cada texto desse escritor e polemista febricitante surge da sua complexa relação com a linguagem: crê nela, a ponto de acreditar que há um “benefício moral” — atingir o máximo grau de responsabilidade — quando aprendemos não ser possível lesar a língua impunemente; e, ao mesmo tempo, sente prazer por ela submetê-lo, considera proveitosa “essa dificuldade que alivia todas as outras cargas da existência”, alegra-se por experimentar “esse não-chegar-ao-final” em uma infinitude que está acessível a todos. Kraus diz que “aproximar-se dos enigmas das regras da língua, dos desígnios dos seus perigos, é melhor loucura que a de saber dominá-la”. 

Os escritores a que me refiro, contudo, vivem exatamente o que Kraus mais censurava: “A fala e a escrita de hoje, incluídas as dos experts, converteram (…) a linguagem no lixo de uma época que extrai do jornal todo o seu acontecer e experimentar, todo o seu ser e valer”. De fato, se incluímos a Web, temos o quadro leviano de que precisamos nos afastar, pois a responsabilidade do escritor se concentra na escolha da palavra — para Kraus, a escolha “que deveria ser a mais difícil, e que agora é a mais fácil”. Não há outro dever para nós, que trabalhamos com as palavras, a não ser o de “seguir a língua pelas sendas que o olhar do leitor profano não adivinha e que levam ali onde começa o amor”.

Grande parte dos escritores atuais, entretanto, dedica-se a dissolver a língua, a derretê-la numa forma pastosa e barulhenta, a despersonalizá-la, tratando-a sem o distanciamento com que devemos tratar quem não conhecemos — e nunca conheceremos plenamente. Na verdade, mais que um respeitoso distanciamento, a língua merece nossa reverência. Não a reverência dos néscios, dos tímidos ou dos ingênuos, mas a de Karl Kraus, para quem “o perigo da palavra é o prazer do pensamento”. 

Esses autores acreditam que preocupações formais com a linguagem são um tipo de elitismo burguês, mas enquanto usam a ideologia para se aferrar à incultura, enquanto se enforcam na linguagem vulgar, a lição de Kraus persiste: “A forma não é a roupagem do pensamento, mas sua carne” — essa, a lei fundamental da escrita.



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