Três livros para compreender o Brasil

Nos dois últimos meses, enquanto terminava a edição do meu novo livro — Crítica, Literatura e Narratofobia —, que sairá em novembro pela Vide Editorial, e preparava as aulas para a 1ª turma on-line da minha Oficina de Escrita Criativa, li três livros que me ajudaram a compreender o Brasil de hoje.

Saliento que os três autores são meus amigos — o que não significa que esta rápida análise represente algum tipo de troca de favor. Não. Acontece que, antes de sermos amigos, temos formas de pensar, de entender a política e a realidade, muito semelhantes. E é sempre uma alegria poder falar bem de alguns livros — ainda que o senso comum veja o crítico como alguém sempre predisposto a falar mal.

Do sonho à realidade

Em O cinema sonhado, Josias Teófilo busca reconstruir a figura do avô, Pedro Teófilo Batista (1929-1989), que foi aviador de formação, repórter cinematográfico, arquiteto autodidata, cineasta e inventor. Não se trata, contudo, de uma biografia, mas, sim, de redescobrir uma alma, segundo as palavras de Fustel de Coulanges, para quem o estudo da alma deve ser o objeto da ciência histórica, devendo esta “aspirar a conhecer aquilo em que a alma acreditou, pensou e sentiu nos diferentes estágios da vida do gênero humano”.

Essa “alma”, vista por Coulanges como índole ou caráter de uma sociedade, de um grupo de indivíduos, transforma-se, com Josias Teófilo, na metodologia pessoal com que analisa não somente as lembranças que restaram do avô visionário, mas suas “crenças mais profundas” e, inclusive, “o princípio interior por trás dessas crenças”.

Josias TeófiloUma questão de ordem cronológica, entretanto, complica o trabalho do ensaísta: como alcançar a vida interior de seu avô, pessoa com quem pôde conviver só até os 2 anos de idade? Fustel de Coulanges, mais uma vez, o auxilia: “Se o homem descer ao fundo da sua alma, nela poderá encontrar e distinguir essas diferentes épocas, segundo o que cada uma delas nele deixou”.

Fecha-se, dessa forma, a metodologia do ensaio: distinguir a vida do avô dentro da sua (do autor) própria alma. A biografia torna-se autobiografia. O cinema sonhado busca não apenas o avô, mas também a imagem do avô que é parte indissociável da alma do próprio ensaísta.

Ao empreender essa busca, o autor responde também à inesperada fala de sua tia Letícia: “Meu filho, você pode ser diferente do seu pai e do seu tio!” — afirmativa profética dessa mulher que me lembrou Tirésias, pronta a conclamar o autor à realização concreta e não apenas viver no mundo dos sonhos.

O livro é, portanto, auto-descoberta, resposta aos familiares e antepassados que, presos ao mundo onírico, não concretizaram o que, agora, cabe a Josias Teófilo fazer.

Mas por que o livro serve à compreensão do Brasil contemporâneo? Porque, passadas duas décadas de mentiras esquerdistas, duas décadas de mentiras oferecidas ao povo como sonhos realizados, duas décadas de retórica vazia e falsas promessas, é chegada, mais uma vez, a hora do país parar de estocar vento, prática em que os dois últimos governantes se especializaram. Semelhante ao périplo empreendido por Josias Teófilo, devemos abrir os olhos à realidade.

Multidão frenética — histeria coletiva

Por trás da máscara, de Flavio Morgenstern, não é, como muitos pensam, apenas um estudo sociológico sobre as manifestações populares violentas que ocorreram no Brasil em 2013. Trata-se, na verdade, de profunda análise sobre o comportamento da massa — ou, para usar a citação de Andrew Breitbart, de que Morgenstern tanto gosta, uma análise sobre o comportamento do “rebanho humano”.

Morgenstern denuncia a superficialidade e o caráter irresponsável da mídia, absolutamente incapaz de entender o que aconteceu naqueles meses. E desnuda os intelectuais — que ele chama, numa deliciosa ironia, de “palpitariado” — e seus eternos lugares-comuns, que nada explicam. Intelectualidade, aliás, jamais chamada a justificar seus eternos erros de análise, como o caso de Manuel Castells, que termina seu Redes de indignação e esperança elogiando a Irmandade Muçulmana por sua defesa do Islã e, acreditem!, da democracia.

Mas Por trás da máscara também não é só um libelo contra a mídia e a nossa intelligentsia. Morgenstern leva seu estudo ao cerne das manifestações de massa, mostrando sua ligação com o movimento comunista, que “se reinventa e abandona bandeiras periféricas conforme a conveniência, pois o marxismo como estrutura econômica é sempre uma catástrofe. Todavia o marxismo ainda é quase perfeito como ciência e técnica da ação revolucionária, no que não depende em nada da estrutura econômica pregada. Ou seja, ideais marxistas (‘passe livre’ incluso) são o grande motor dos movimentos revolucionários pelo mundo, mesmo que, como apregoa abertamente Slavoj Žižek, peçam o impossível, para não serem cobrados por resultados. Travestida em linguajar modernoso, esconde-se a velha logorréia comunista […]”.flavio morgenstern

A conclusão de Morgenstern a respeito desse molde revolucionário de manifestação é perfeita: “É a partir da criação de uma cultura marxista que o movimento será posto em marcha, sobretudo uma cultura que não precise dizer claramente seus objetivos — preferindo falar sempre pontualmente, ora da legalização da maconha, ora da estatização do transporte. Ora da legalização do aborto, ora do sindicato dos professores. A mensagem final, que reúne todos sob uma única bandeira, nunca é dita claramente. Todavia, inevitavelmente, será uma bandeira não apenas de esquerda, como bem próxima dos desejos dos marxistas mais ortodoxos: uma manifestação pedindo ‘passe livre’, que de repente se avacalhe em diversas bandeiras genéricas, mas sempre reivindicando algo do Estado, terá como ÚNICA conseqüência possível aumentar o tamanho do Estado e o poder dos políticos”.

Mas apegar-se a palavras de ordem ditadas por suas lideranças não é apenas um tática política. Não. Morgenstern esclarece, com todas as letras, como a esquerda realmente pensa usando slogans: ela “nunca vai além de uma palavra de ordem. Pedir que a esquerda formule um silogismo, como define Ann Coulter, é ‘como pedir que Michael Moore dance balé’”.

O diagnóstico de Flavio Morgenstern escancara o autoritarismo e a ideologia que se escondiam sob as manifestações de 2013: “Estes são os homens do totalitarismo. As multidões dos protestos brasileiros. Os homens que querem transformar todas as vidas humanas em engrenagens de uma máquina social — e sorriem e se alegram, por desejarem o fim do caos interno capaz de dar à luz uma estrela. Eles querem apenas a turba, a multidão frenética, a marchar em uma única direção, todos sob uma única ordem. Nenhum conflito, responsabilidade e dúvida dentro de si. Estes são os que odeiam a liberdade do homem de criar e viver por ele próprio — sob o ditame do ‘social’ ou do político, querem que toda a vida seja vergada ao peso da histeria coletiva”.

Em Por trás da máscara golfeja a justa indignação deste último trecho. Nesse livro empolgante, escrito num estilo barroco que lembra, muitas vezes, as sábias admoestações de Vieira, Morgenstern dialoga com os principais estudiosos dos movimentos de massa, como Elias Canetti e Ortega y Gasset, e deixa um alerta irônico às mentes lúcidas do país: “Nunca houve totalitarismo sem um povo muito revoltado com tudo isso que está aí”.

A glória do intervencionismo

Se as reflexões de Josias Teófilo voltam-se para a alma — dele e nossa — e as de Flavio Morgenstern concentram-se num momento paradigmático da história recente, Pare de acreditar no governo — Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado, de Bruno Garschagen, é uma revisão da história brasileira que mostra como o estatismo e o intervencionismo governamental insistem em destruir as iniciativas da sociedade.

“Um governo intervencionista não apenas constrói uma mentalidade estatista, mas apequena a sociedade. Um sistema político fundamentado na intervenção, no controle das esferas da vida social, política e econômica corrói as normas sociais, contrai o senso de responsabilidade, dilui o sentido de dever, inviabiliza o exercício da fraternidade, desestimula o trabalho das instituições sociais não governamentais e cria uma nova ordem, que é uma armadilha difícil de ser completamente destruída porque ‘construída pela engenhosidade humana e alimentada com os nossos próprios desejos’” — afirma Garschagen com lucidez.

Pare de acreditar no governo revisita cada momento da nossa história para, sem dissimulações de ordem ideológica, apontar o dedo para um irrefreável anseio despótico. Veja-se, por exemplo, o emblemático Capítulo 6, em que o golpe republicano e os governos da chamada República Velha são apresentados com seu patente autoritarismo. Raríssimas obras de análise histórica falam sobre o golpe do Barão de Lucena, em novembro de 1891; a respeito da visão autoritária e hierárquica que se escondia sob o positivismo de Benjamin Constant; ou sobre a ditadura de Floriano Peixoto, baseada no culto à personalidade — exatamente, conclui Garschagen, como, depois, fariam Getúlio Vargas e Lula.

bruno garschagenEsse, aliás, é outro aspecto elogiável de Pare de acreditar no governo: com deliciosa ironia, Garschagen está sempre pronto a atualizar “as loucuras e os crimes das nacionalidades”. Ao rever, por exemplo, o jacobinismo dos seguidores de Floriano, não deixa de comentar: “Xenófobos, os jacobinos cariocas eram nacionalistas, autoritários, anticlericais e tinham como lema ‘O Brasil para brasileiros!’, que mostrava no ponto de exclamação a natureza da sua força verbal. Na década de 1970, o governo militar, sob a presidência do sempre sorridente general Emílio Garrastazu Médici, gaúcho como Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e Getúlio Vargas, iria patrocinar o ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’ como um mote igualmente acolhedor”.

Garschagen desempenha com inteligência a tarefa de rever a história brasileira em 300 páginas — e não deixa de nos alertar sobre os perigos que se escondem nos diferentes tipos de intervencionismo, perigos que afetam nossa própria intimidade: “Se os intervencionistas tentam controlar, modificar ou corromper elementos importantes da nossa cultura é porque os vêem como uma rede de proteção contra seus projetos políticos. Quando um partido fragiliza o papel das famílias mediante um ensino que atenta contra a relação de pais e filhos dentro de casa, ou adota posições que impedem os familiares de decidir o que é melhor para as suas crianças, começa a destruir as bases de formação cultural de cada um de nós. Se não há uma cultura que oriente e defina a política, a política irá orientar e definir a cultura”.

Há espaço em Pare de acreditar no governo inclusive para denunciar um crime tão grave quanto a corrupção, praticado à luz do dia pelos governos petistas, mas que não tem merecido as páginas dos jornais, infelizmente: o crime do intervencionismo estatal que se transforma em “engenharia social dissimulada, indolor e extremamente eficaz”.

Semelhante à manipulação marxista denunciada por Flavio Morgenstern, Bruno Garschagen mostra como o governo consegue fazer com que a sociedade pense e aja “segundo um código ideológico” — e é exatamente essa “a glória do intervencionismo: controlar a sociedade sem precisar de um órgão do governo responsável por persuadir ou coagir os indivíduos a se comportar de acordo com o interesse do governo de turno”.

***

Josias Teófilo, Flavio Morgenstern e Bruno Garschagen e seus livros para compreender o Brasil cumprem a tarefa do intelectual. Obrigam os leitores à reflexão, mas também à crítica do seu tempo e da sua história, pessoal e coletiva; olhando para o passado e o presente, não se enganar com as soluções fáceis do sonho, da ideologia e do Estado, mas construir a vida com nossas próprias mãos, exercendo nosso maior direito: a liberdade.

livros para compreender o Brasil