Manuel Bandeira e Machado de Assis, “o grande esquizoide”

Acostumados a desvincular a literatura da realidade, viciados no que os estruturalistas ensinam, esquecemos que, sob o texto, pulsa o homem — o escritor com sua visão de mundo, seus preconceitos, sua possível ética, seus medos.

De fato, é cômodo ler e analisar a literatura como se ela pairasse em algum ponto da estratosfera, isolada do mundo, protegida dos vícios e das paixões que cada escritor carrega.

Não se trata, percebam, de retornar à velha discussão sobre qual o melhor método de análise literária. Não. Esse debate já comprovou sua pequenez. A questão é inverter o problema e aceitar, como pressuposto, o que Todorov recorda: “A literatura aspira compreender a experiência humana”.

Se Todorov está certo — e está —, nenhum aspecto da obra, incluindo a vida e os valores de quem a escreveu, pode ser desprezado. Ou seja, todos os métodos de interpretação da obra literária são complementares, incluindo a biografia do autor.

Esta pequena introdução parece não ter nada a ver com nosso título, mas tem. E muito.

Machado de Assis e sua “psicologia dura, derrotista, insultante”

Os leitores atuais se acostumaram a ler Machado de Assis como se a perfeição estilística que ele às vezes alcança pudesse ser desvinculada do seu ceticismo, da sua visão agnóstica, do seu eterno pessimismo. Ninguém afirma hoje — como lembrou José Carlos Zamboni no prefácio que escreveu ao meu Muita retórica — Pouca literatura — que, por exemplo, Bentinho, protagonista de Dom Casmurro, “é o modelo do prestidigitador relativista da modernidade”.

Na contramão de grande parte dos estudos e das críticas contemporâneas, é preciso recuperar, em nossa análise de Machado, o pressuposto de que o homem Machado, antes do escritor Machado — ou junto com ele —, escreveu para, principalmente, “compreender a experiência humana”.

É o que Manuel Bandeira nos oferece em duas crônicas: “Antonieta Rudge” (14 de junho de 1930) e “Machado de Assis” (20 de maio de 1939).

machado de assis manuel bandeira

“[…] Eu achava, e ainda hoje acho, que Machado de Assis era um monstro. Um monstro que não fazia mal a ninguém, mas não obstante um monstro” — Manuel Bandeira

Bandeira conheceu pessoalmente Machado. Passava pela casinha do mestre “sempre com um bruto respeito”; via, todas as noites, Machado e Carolina caminharem “agarradinhos” depois do jantar; e afirma que o escritor “dava a impressão de um homem muito tímido, muito discreto, incapaz da menor maldade”.

Mas para o bom leitor — um bom leitor como Bandeira —, que tinha lido toda a obra de Machado, havia algo de inquietante no romancista: “O gosto doentio de espiar o sofrimento alheio. E a psicologia dura, derrotista, insultante […]. Sempre o móvel egoísta, e ainda que limpo, inconfessável”.

Bandeira completa: “Machado de Assis dava o sentimento desconfortante que aos olhos dele não adiantava ser bom, que era impossível fazê-lo reconhecer a generosidade de um nosso gesto de bondade, de dignidade ou de modéstia”.

O julgamento de Bandeira, se utilizado para completar nossa leitura dos romances e contos machadianos, ilumina as narrativas: “[…] Eu achava, e ainda hoje acho, que Machado de Assis era um monstro. Um monstro que não fazia mal a ninguém, mas não obstante um monstro”. É impossível não lembrar, aqui, de, por exemplo, “A Causa Secreta”.

Nove anos depois dessa crônica, ao analisar o estudo crítico e biográfico de Lúcia Miguel Pereira sobre Machado, Bandeira elogia o livro, mas conclui: “Virada a última página, que impressão se guarda do biografado? Hum… ruinzinha!”.

Bandeira é claro: Machado era um “grande esquizoide”. “Venceu em toda a linha”, diz o poeta, “mas foi uma vitória que lhe envenenou as fontes do pensamento”.

Segundo Bandeira — discordando de Lúcia Miguel Pereira —, o egoísmo foi “a linha mestra” da vida de Machado: “[…] Teve, para não se desprezar a si próprio, de desprezar os homens em bloco, de atribuir sempre aos atos humanos um móvel egoísta”.

E cabe a Bandeira a conclusão que a crítica contemporânea evita fazer: a obra de Machado é grande, uma obra que “nos enche de admiração” — mas, ao mesmo tempo, “deixa-nos no coração um sentimento amargo”.

Ocorre conosco, quando lemos Machado, o que ocorreu a Bentinho no Capítulo CXLIV de Dom Casmurro: a ramagem sussurra algo, ele imagina ouvir “a cantiga das manhãs novas”, mas na verdade escuta “o grunhir dos porcos, espécie de troça concentrada e filosófica”.



  • A realidade é exatamente o oposto do que você fala, Fernando. O mal e a falta de caráter são exceções. O problema de Machado é exatamente esse: julgar os homens com cinismo.

  • É verdade, Leandro.

  • Não é verdade, Marco. Muitos autores conseguem mostrar a grandeza humana. E mostram apenas por um motivo: por serem fiéis à verdade. E isso acontece, inclusive, com ótimos escritores contemporâneos. Leia, por exemplo, Cormac McCarthy. Bem e mal estão ali, nas suas narrativas — bem e mal, exatamente como na vida.

    • Marco Rezende

      Eles podem mostrar na literatura, como um ideal a ser alcançado, porém, eu nunca vi essa tal grandeza humana na vida. Todos os atos humanos que eu já vi são degradantes e visando algum interesse pessoal, não encontrei dentro da realidade um única ação humana genuinamente boa, com exceção dos exemplos históricos, como Jesus e Sócrates.

      • Você anda muito mal acompanhado, Marco. Em 56 anos de vida já me deparei com milhares de ações genuinamente boas.

        • Marco Rezende

          Eu ainda sou novo, talvez, duvido muito, algum dia eu veja a bondade nas ações humanas, reitero que já perdi a esperança.

          • Assim espero, Marco! Um abraço!

          • Geraldo

            Fiquei me perguntando como você qualifica o que chama de “bondade nas ações humanas” ou de “ação humana genuinamente boa”. Seria algo totalmente incontaminado, ou uma vida inteira de bondade sem um momento sequer de egoísmo, uma bondade semelhante à infinita e perfeita bondade divina?
            Isso também eu nunca vi, mas estou careca de ver, mesmo da parte de gente mesquinha e egoísta, momentos de generosidade. Bem como já vi muita gente (gente imperfeita, limitada) em cuja vida, predomina muito mais a generosidade desinteressada, sendo que eu próprio já fui, inúmeras vezes, beneficiado por essa generosidade. Gente que jamais me cobrou qualquer retorno, que se doou a mim, com seus dons, seus bens materiais, sem jamais tocar no assunto novamente. Muitas e muitas vezes isso me ocorreu e tenho grata memória disso tudo. Como eu poderia esquecer, por exemplo, de um amigo que – quando me vi preso à uma dívida monstruosa que fui obrigado a contrair- me doou a metade de seu salário, por dois anos seguidos e jamais aceitou que eu lhe devolvesse essa ajuda? E sequer permite que eu toque no assunto? É um homem com seus defeitos e fragilidades, que tem também pecados e egoísmos, mas eu não posso jamais dizer que juntamente com seus defeitos e pecados, não existe dentro dele, generosidade e bondade. Eu seria pretensioso e arrogante se eu começasse a esquadrinhar motivações mesquinhas, quiçá secretas, em sua ajuda ou começasse a por na balança os seus defeitos contra as suas generosas qualidades. Ora atitudes assim, como a desse amigo, se eu fosse registrar por escrito, teria que escrever centenas de livros. Olha, sinceramente, se a sua afirmação (de que não encontrou ainda gestos de desinteressada bondade e gratuidade) não for apenas exigência arrogante de perfeição e pureza absolutas – nos outros – se essa for mesmo a sua experiência de vida, fico com muita pena de você. Pois a minha experiência é o exato oposto: já vi sim muita gente canalha, que até faz o bem calculando o retorno, ou faz o mal como se sentisse gosto nisso. Mas já vi tanta gente boa, capaz de tirar do pouco que tem, para dar aos outros (minha mãe, meu pai, ambos sempre foram assim!) . Não é gente perfeita não. É gente que também tem atitudes egoístas ao longo da sua vida, mas que também pratica o bem, ora essa! Se você não tem histórias de generosa gratuidade para contar, nesse sentido, e está sendo sincero consigo mesmo ( e sem a pretensão de julgar intenções alheias) fico mesmo com muita pena!

  • Geraldo

    Em relação ao livro “O Crime do Padre Amaro” de Eça de Queirós, o autor não vê de forma alguma o mundo e a humanidade como algo sem esperança e irremediavelmente podre. Chama a atenção, no livro, a generosa e forte figura do Abade Ferrão (assim como no Auto da Compadecia, o frade que vive atrás do bispo com um guarda-chuva aberto para protegê-lo do sol e que as versões cinematográficas omitiram. Suassuna diz, na peça, que este foi direto para o céu). Dostoiévski em Crime e Castigo, não vê a humanidade corrompida de Raskolnikov como algo perdido para sempre, pois o rapaz se recupera.
    Creio que é uma questão de olhar e de educação do olhar. Uma singela parábola popular diz que podemos escolher entre ter um olhar de urubu ou de garimpeiro: o urubu, mesmo num campo limpo e verdejante, tem seu olhar focado sobre a mínima carniça que ali possa haver. Já o garimpeiro, tem um feeling treinado para sentir e buscar a mínima pepita de ouro mesmo tendo que enfiar a mão dentro de um fétido lamaçal. Sei que Eça de Queirós retrata uma corrupção clerical realmente existente (não tenho dados estatísticos para saber quão presente ela estava em seu tempo) mas tenho certeza que seu olhar de urubu, não reina absoluto no livro, pois ele também exercita o feeling do garimpeiro ao nos descrever e narrar a bela e íntegra figura do Abade Ferrão.
    Não sei se percebi bem sua última frase (se houve erro de digitação na pressa) onde você diz que o ser humano só cura sua podridão com o auxílio divino (se eu bem entendi). Mas é claro! Talvez saindo do terreno literário e entrando um pouquinho no teológico, é claro que toda a autêntica bondade (ainda que mínima, ainda que não predominante na vida de alguém) que possamos encontrar no ser humano é fruto da graça do seu criador, saiba ele disso ou não, pois “nEle nos movemos, existimos e somos” como dizia o apóstolo aos atenienses.

  • Não, não conhecia a carta, Eduardo. Obrigado. Muito bom este trecho: “Machado escrevia com medo do [José Feliciano de] Castilho e escondendo o que sen­tia, para não se rebaixar; eu não tenho medo da palmatória do Feliciano e escrevo com muito temor de não dizer tudo o que quero e sinto, sem calcular se me rebaixo ou se me exalto”. Um abraço!

  • Li Machado de Assis com 12, 13 anos de idade, devido principalmente a não ter, na escola, no dia-dia, nada que me causasse a inquietude de “outras vidas”, digamos assim.

    Agora, lendo essa passagem do Manuel Bandeira, entendo o meu fascínio pelo autor que, em uma nota em livro, você fez questão de dizer não se agradar do estilo. Esquizoide…