“Melhores crônicas” sem nenhum critério

Ganhei de certo amigo, faz alguns dias, uma dessas coletâneas que prometem entregar ao leitor “os melhores poemas” de fulano, “as melhores crônicas” de beltrano e “os melhores contos” de sicrano. Mantenho saudável distância desse tipo de livro, pois sei que, por trás do atrativo de oferecer ao leitor a síntese perfeita e salvadora — capaz de revelar, na rápida brochura, o que de melhor o autor produziu —, escondem-se os critérios do selecionador, nem sempre claros, muitas vezes contestáveis (quando não censuráveis).

Mas meu amigo — na verdade, não tão amigo assim — é um poço de insistência. Se ele presenteia você com um cinzeiro, na próxima visita, meses depois, ficará olhando para todos os cantos da sala, à procura do bendito presente, e só descansará quando, movido pela pulsão incontrolável, perguntar: “E o cinzeiro? Você não está usando? Não gostou?!”. De forma que, conhecedor da armadilha, eu sabia que precisava, ao menos, folhear o livro.

Lá fui eu, então, numa tarde de domingo, fazer a pior das tarefas: ler um livro que não quero ler.

Abro o volume e descubro quem selecionou as “melhores crônicas”. Uma escritora. Segundo o que se informa, escritora de quatro costados. Vencedora do Grande Prêmio de Poesia de Juruquim-Mirim, catedrática de Teoria Literária na Universidade Itaquaquecetuba IV, doutorada em Literatura Forense pela Universidade de Gueorguievsk, também ficcionista, ensaísta, crítica literária, porta-bandeira da Unidos de Lajedinho e — por que ainda me surpreendo com certas coisas? — grã-sacerdotisa da Liga Feminina Islâmica-Marxista de Irerê.

melhores crônicas

De Goya, “Uma rainha do circo”.

Com um currículo assim, penso eu, a criatura certamente fez a coletânea perfeita, acima do Bem e do Mal, inatacável, irrepreensível, referência absoluta para, no mínimo, as próximas dez gerações…

Muito bem. Passo, empolgadíssimo, ansioso, quase febril, à apresentação. Altiva, como se falasse de um promontório do qual se divisa a humanidade, nossa querida selecionadora avisa, logo na segunda linha: “Não pretendi privilegiar o critério qualitativo”. Como assim?, pergunto-me, pronto a levantar do sofá. Mas não são “as melhores crônicas”? Não são as crônicas de melhor qualidade literária? Percorro, com o lápis na mão, as sete verborrágicas páginas da porta-bandeira, catedrática, poetisa, doutora, crítica literária e grã-sacerdotisa. E descubro, paralisado pela decepção, que ela não estabeleceu critérios, que ela desprezou o “critério qualitativo” — e não escolheu nenhum outro.

Fecho o volumezinho. Aquelas não são “as melhores crônicas” de fulano. Mas também não são as piores. Não são nada. Foram tiradas na sorte, no par ou ímpar, no dois ou um. Não é uma seleção, mas um acidente, uma leviandade, um ardil.

Evito pensar que tal livrinho, feito com tanta irresponsabilidade, é um representante fiel do nosso sistema literário. Mas não consigo esquecer do meu nobilíssimo amigo. Quando reencontrá-lo, devo retribuir o presente — só não decidi, ainda, o que pode estar à altura.