Paula Fox e a morte da civilidade

Além do estilo, o que mais impressiona em Desesperados, de Paula Fox, é a morte da civilidade. E como a história se assemelha ao que presenciamos em nosso cotidiano. Acompanhar as descrições do Brooklyn, na Nova York da década de 1960 (o livro foi lançado em 1970), e dos personagens que se sentem restringidos em sua liberdade, em sua segurança, provoca desagradável analogia, por exemplo, com o que experimento em São Paulo.

Sophie e Otto, os protagonistas, vivem uma situação econômica estável e são pessoas educadas, sensíveis. O casal encontra-se ilhado em seu mundo de cultura e pequenos luxos, mas o cerco se fecha, lentamente: os valores se confundem — uma funcionária do escritório de Otto é apontada como racista por pedir a um cliente negro que apague o cigarro no cinzeiro e não no carpete; os direitos individuais deixam de ser uma prerrogativa de todos e se transformam em trincheiras contra os “brancos

Paula Fox morte da civilidade

Paula Fox

instruídos”; atos de vandalismo se repetem, a violência se banaliza; e a própria comunicação parece impossível, pois as conversas do dia-a-dia são repletas de gírias ou lugares-comuns, e também de um esquerdismo rasteiro, útil para desculpar comportamentos imorais, plenamente injustificáveis.

Um crítico marxista, em sua visão superficial e poluída da pior ideologia, diria que Sophie e Otto pagam o preço da “proletarização da sociedade”. A questão, contudo, é mais profunda. Há uma sistemática relativização dos valores, uma evidente decadência do espírito. Mesmo alguns amigos do casal se contaminam, tornando-se cínicos ou superficiais.

Não que Sophie e Otto sejam puros, inatacáveis, mas testemunham a morte da civilidade — até mesmo daquela mínima polidez que garante o convívio social. As ruas estão sempre imundas, o morador de um cortiço vizinho urina pela janela. A conclusão de Sophie, ao recordar o período em que traiu Otto, serve para definir o que ela e seu marido percebem cada vez mais: “Tiquetaqueando dentro da carapaça de vida normal e de seus acordos rudimentares estava a anarquia”.

Repetindo o que já afirmei, as comparações são inevitáveis — e os moradores das grandes cidades brasileiras, e que ainda mantêm um mínimo de lucidez, se identificarão com os protagonistas. Sensação, aliás, reforçada pela linguagem da autora, precisa e cruciante, como neste trecho, no qual o narrador descreve a sala de espera de um pronto-socorro:

Era como uma estação de ônibus, como um pátio abandonado, como os corredores dos vagões dos velhos trens B. & O., como plataformas de metrô, como delegacias. Combinava a qualidade transitória, a atmosfera de um terminal público com o terror imediatamente apreendido de uma antecâmara para o desastre.

Era um buraco morto, com cheiro de couro sintético e desinfetante, dois cheiros que pareciam emanar da cobertura rasgada e arranhada dos bancos encostados nas três paredes. Cheirava a cinza de tabaco que enchia os dois cinzeiros metálicos de coluna. Na beira cromada de um deles, um toco de charuto brilhava, úmido, como um pedaço de bife mastigado. Havia um cheiro de casca de amendoim e dos papéis encerados de caramelos jogados pelo chão, cheiro de jornal velho, seco, manchado de tinta, sufocante e ligeiramente semelhante a urinol, cheiro de suor de axilas, virilhas, costas, rostos, porejando e secando no ar sem vida, cheiro de roupa – fluidos de limpeza embebidos em tecido e desabrochando horrivelmente no ar quente e adocicado, que grudava nas narinas como espinhos – toda a exsudação da carne humana, o buquê do ser animal, emanando, secando, deixando um odor de desespero peculiar e inerradicável na sala, como se a química se transformasse em espírito, uma ascensão de algum tipo.

A partir de uma ocorrência tola, a mordida de um gato e alguns arranhões, a história se desencadeia, lançando Sophie e Otto no centro de um mundo onde não há espaço para a cordialidade ou a tolerância. Uma civilização sem propósito, impregnada de ódio e rudeza. O nosso mundo.