Você tem motivos para escrever?

Os motivos para escrever são inúmeros. W. H. Auden conta, por exemplo, que começou a escrever poesia “porque numa tarde de domingo, em março de 1922, um amigo me sugeriu que o fizesse”. E acrescenta, depois de recordar suas leituras preferidas à época, algumas voltadas à mineralogia, que “a sugestão de que eu escrevesse poesia parecia uma revelação do céu, pois nada em meu passado justificava tal curso”.

Ao mesmo tempo, Auden recorda sua singular empatia com os vocábulos: “Lia a prosa tecnológica de meus livros favoritos de uma maneira peculiar. Uma palavra como pyrites (pirita de ferro), por exemplo, não possuía, para mim, simplesmente um único conteúdo significativo; era também o nome próprio de um Ser Secreto”. Dessa forma de sintonia com as palavras derivou uma certeza posterior, a de que “o poeta deve cortejar não apenas a Musa, mas também a Madame Filologia; e, para o principiante, esta última é a mais importante”.

Motivos para escrever

“O poeta deve cortejar não apenas a Musa, mas também a Madame Filologia.” — W. H. Auden

Gosto de lembrar esse começo inusitado de carreira, pois ele serve de alento, é uma dose significativa de energia, para quem vê os escritores como seres angélicos — e a escrita como dom alcançável apenas a uma minoria de escolhidos.

Lembro-me de minha adolescência, quando eu escrevia sobre qualquer coisa, repleto de sentimentos complexos ou obscuros. Minha tia, irmã de meu pai, era enfermeira e trouxe-me algumas resmas de folhas contínuas, picotadas, que pareciam o resultado de uma interminável encefalografia. Ter aquela pilha imensa de folhas na estante do quarto era um convite sedutor: eu precisava preenchê-las. Então, escrevia. Escrevia muito. Escrevia mais do que estudava, com absoluta certeza.

Aquele papel tinha algo especial: o verso, em branco, era extremamente liso, de maneira que a ponta da caneta deslizava sem enfrentar resistência. Ainda hoje, passados mais de quarenta anos, recordo-me com prazer da caneta deslizando sobre o papel — sensação que parecia liberar minha criatividade.

Depois, passei a usar cadernetas de bolso. Tinham capa azul, que imitava couro, e enchi várias com pensamentos, citações interessantes, livros que precisava ler, conclusões inesperadas sobre a vida, às vezes o esboço de um desenho. Assim, eu transformava tudo em motivos para escrever.

Mesmo quando comecei a escrever de maneira intencional, com o objetivo de ser algum tipo de escritor, não me preocupava com gêneros literários. Apenas escrevia. Muitas vezes imaginei os textos daquelas folhas de encefalografia — que se acumulavam na estante do meu quarto ou que eu distribuía aos amigos — como exemplos de poesia; mas eu ainda não tinha autocrítica para saber o quanto tudo aquilo era medíocre — e, também, o quanto a poesia é um gênero dificílimo.

Escrita, leitura e cópia — além dos motivos para escrever

De qualquer forma, creio que essa é uma boa forma de começar: apegar-se à escrita, à paixão por escrever, sem nos preocuparmos se produzimos prosa ou poesia, se aquelas palavras, provavelmente amontoadas, são contos, sonetos, romances ou ensaios.

Não sabemos ao certo por que escolhemos um livro, por que e como a leitura nos contamina e, principalmente, por qual motivo aquele determinado trecho é o mais importante, o mais significativo.

Quando a escrita é uma necessidade, devemos obedecer à febre, escrever sobre tudo, gravar nossos pensamentos, descrever nossas reações, anotar cada pequena epifania, cada intuição, cada revelação do real.

Mas também devemos ler muito. E fazer o que minha primeira professora de literatura me ensinou: copiar os trechos de que mais gostamos, de maneira a formar uma antologia pessoal com textos que, por qualquer motivo, tornam-se referências. Com o passar do tempo, eles serão esquecidos e, com certeza, substituídos por outros. Mas não importa. Esses exercícios constantes — de escrita, leitura e cópia — formarão um alicerce seguro.

É difícil explicar os resultados dessas experiências tão subjetivas. Não sabemos ao certo por que escolhemos um livro, por que e como a leitura nos contamina e, principalmente, por qual motivo aquele determinado trecho é o mais importante, o mais significativo. Mas, para a mente aberta à escrita, essas leituras e esses trechos copiados se depositarão na alma. Ocorrerá uma sedimentação — não só uma acumulação em camadas, mas uma mescla de estilos, de sons, de ritmos, de consonâncias, de imagens — e, no final, alterações químicas formarão novos elementos. Tudo se mesclará à personalidade, contribuindo para formar um estilo próprio e, por que não?, também o caráter.