escritor diante da vida

Van Gogh e o escritor diante da vida

Todo artista descobre, por meio da dedicação constante, graças à insistência com que se empenha diariamente, um método de trabalho. Essa técnica, essa forma de proceder, não é concedida ao escritor como um dom mediúnico, mas pressupõe esforço, empenho. Ou seja, anterior ao método de trabalho, há, necessariamente, um determinado comportamento do escritor diante da vida.

As cartas de Vincent van Gogh a seu irmão, Theo, estão repletas de referências a esse conjunto de atitudes que o artista — e, portanto, o escritor — deve assumir em seu cotidiano. E que, passo a passo, lhe concederá a liberdade que só a disciplina, só o método pode garantir.

O aspecto fundamental é a busca da solidão. E sua importância cresce na exata medida em que somos, hoje, cada vez mais requisitados pela Internet, por redes sociais, por celulares e tablets. O escritor que vive em grandes centros urbanos é assediado em proporções ainda maiores, pois a vida social — o burburinho dos bares, dos programas culturais, das reuniões desta ou daquela panelinha — convoca-o todos os dias.

Van Gogh diz que “às vezes é bom ir ao fundo e frequentar os homens, e às vezes somos até obrigados e chamados a isto” — entretanto, logo a seguir conclui: “Mas aquele que prefere permanecer só e tranquilo em sua obra, e não quer ter mais que uns poucos amigos, é quem circula com maior segurança entre os homens e no mundo”.

Isso ocorre porque a solidão concede ao escritor independência emocional: seus textos não surgem para satisfazer esta ou aquela pessoa; a aprovação dos outros — que, de maneira infantil, tantos buscam — lhe é indiferente, pois seu primeiro compromisso está firmado, desde sempre, com sua consciência.

O escritor que vive em grandes centros urbanos é assediado pelo burburinho dos bares, dos programas culturais, das reuniões desta ou daquela panelinha.

O escritor que vive em grandes centros urbanos é assediado pelo burburinho dos bares, dos programas culturais, das reuniões desta ou daquela panelinha.

“Mesmo nos ambientes cultos e nas melhores sociedades e circunstâncias mais favoráveis, é preciso conservar algo do caráter original de um Robinson Crusoé ou de um homem da natureza, jamais deixar extinguir-se a chama interior, e sim cultivá-la”, reafirma Van Gogh.

Ele próprio experimentou essa verdade após o período turbulento, frustrante, em que buscava a companhia de outros artistas e chegou a tentar estabelecer uma comunidade de pintores que dividiriam a mesma casa, colocando tudo em comum.

A solidão confere ao escritor um tipo especial de dignidade, que o liberta da urgência da aprovação alheia. Se você experimenta a dúvida em seu íntimo, diz Van Gogh, “se uma voz lhe diz ‘Você não é pintor’, é então que você deve pintar, meu velho, e também esta voz se calará”. O comportamento nefasto, quando a dúvida nos assalta, é o dos imaturos, que correm “a seus amigos contar suas penas” — esses, para Van Gogh, perdem “um pouco da sua energia, um pouco do que têm de melhor em si”. Ele conclui: “Só podem ser seus amigos aqueles que também lutam contra isso, aqueles que pelo exemplo de sua própria atividade estimulam o que há de ativo em você mesmo”.

Nesse sentido, buscar a aprovação geral é o pior defeito — assim como titubear. Se o mundo ou as pessoas querem nos prender à vacilação, “não podemos recuar”, diz Van Gogh, “e quando começamos a considerar as coisas com um olhar livre e confiante, não podemos voltar atrás e nem hesitar”.

Esta forma de comportamento pode, contudo, nos dar uma idéia errada da personalidade de Van Gogh, pois, em sua solidão, ele se mantém equidistante da arrogância e da busca ostensiva pela fama. A respeito desta última, fala de forma incisiva, utilizando uma citação de Thomas Carlyle: “Conheceis aqueles vagalumes que no Brasil são tão luminosos, que à noite as damas os fincam com alfinetes em suas cabeleiras; a glória é muito boa, mas, vede, ela é para o artista o que o alfinete é para esses insetos”.

No que se refere a qualquer fantasiada superioridade intelectual ou moral do artista, Van Gogh também é claro. Se há uma constante em sua vida, ela se encontra no amor às pessoas simples, aos camponeses, aos mineiros — amor que deve ser o “motivo não só para trabalhar mas com que se consolar e reerguer-se, quando necessário”.

Esse “amor”, entretanto, pode parecer ao escritor — principalmente aos que buscam soluções concretas, práticas, para suas dificuldades de expressão — uma resposta tão imprecisa quanto sentimental. Para esses, Van Gogh resume o seu próprio comportamento como artista: “A única maneira de recobrar o equilíbrio e a serenidade é fazer melhor”.



'Van Gogh e o escritor diante da vida' has 1 comment

  1. 1 junho, 2016 @ 21:36 Rodrigo Gurgel

    Desejo-lhe sucesso, Samuel. Um abraço!

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