O escritor e as palavras: uma relação complexa

Como eles se relacionam, o escritor e as palavras?

Para responder, é preciso, primeiro, entender o funcionamento das palavras.

Quando somos crianças e aprendemos a falar, é como se nossas palavras pertencessem a uma língua primitiva — uma língua em que cada vocábulo designa apenas um elemento da realidade. Para exemplificar essa ideia, sempre conto uma história da minha infância: certa vez, perguntei a minha mãe o que era “vida”; buscando uma forma simples de me explicar, ela disse que “vida somos todos nós, seu pai, eu, você”. Os dias passaram. Uma tarde, a campainha tocou e fui atender à porta. Não me lembro quem era, mas quando voltei para dentro, a fim de chamar minha mãe, eu disse: “Tem uma vida querendo falar com a senhora”.

Sabemos que essa maneira de entender a relação entre as palavras e os elementos da realidade muda com o tempo. Quanto mais amadurecemos em nosso contato com as palavras, mais perdemos essa forma simples de entendê-las. As palavras, lentamente, vão ganhando novos significados, tornam-se plurivalentes — e também fluidas, enganosas, dependentes do contexto em que são utilizadas.

O escritor e as palavras

As palavras ganham, lentamente, novos significados, tornam-se plurivalentes — e também fluidas, enganosas, dependentes do contexto em que são utilizadas.

É claro que elas mantêm um núcleo, mais ou menos constante, de significado imutável. Se não fosse assim, a comunicação seria impossível. Mas cada palavra pode, a depender do contexto em que é utilizada, ganhar um sentido específico. Para dizer de forma mais, digamos, visual, é como se as palavras fossem biombos que escondem significados num canto da nossa mente. A maior parte desses significados, contudo, está fora de nós — nos dicionários carregados de acepções ou na literatura, quando uma figura inusitada confere a certo vocábulo nova função, nova expressividade, amplia sua carga semântica.

O escritor e as palavras: luta constante

Mas o que isso representa para o escritor? O que significa ter de se expressar utilizando elementos ao mesmo tempo sólidos e voláteis?

Não podemos esquecer que, quando escrevemos, há dois momentos: primeiro, o escritor deixa as palavras surgirem naturalmente, sem qualquer tipo de censura. Depois, é preciso reescrever. Nessa segunda fase — a mais difícil, a mais trabalhosa —, a escolha das palavras não pode ser fortuita ou leviana, mas é preciso, como escreveu Flaubert, “meditar”. Meditar a respeito de cada vocábulo. Flaubert dizia: “Ligue-se à palavra”.

Um dos trabalhos do escritor, portanto, é vasculhar o que há por trás dos biombos. Mas nunca de maneira infantil. Aquela imaturidade no uso da língua, sobre a qual falei no início do texto, aquela forma pueril de tratar as palavras, ela está perdida, precisa estar perdida para quem deseja ser escritor. Ou seja, é necessário saber, a cada palavra escolhida, se ela realmente expressa o que você pretende dizer.

É por esse motivo, por encarar seu trabalho sem nenhuma leviandade, que muitos escritores realmente lutam com as palavras. Para Kafka, por exemplo, escrever era um tormento. Em novembro de 1910, ele anota em seu diário: “Quando sento-me diante da escrivaninha, meus ânimos não são melhores do que os do indivíduo que cai no meio da Place de l’Opéra e quebra as duas pernas”. Kafka diz que suas dúvidas “formam um círculo em torno de cada palavra”.

“Quando sento-me diante da escrivaninha, meus ânimos não são melhores do que os do indivíduo que cai no meio da Place de l’Opéra e quebra as duas pernas” — F. Kafka

A insatisfação é uma presença constante porque o escritor sabe que um texto sempre pode ter uma versão mais aprimorada — na qual ritmo, eufonia e clareza se combinem. Na qual as palavras correspondam perfeitamente à ideia, à imagem que o escritor possui em sua mente.

Manuel Bandeira dizia que cada palavra deve estar “no seu lugar exato”; e que “cada palavra tem uma função precisa, de caráter intelectivo ou puramente musical”. Ao citar o aspecto “musical”, Bandeira explicava: “Não serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores e posteriores”.

O escritor e as palavras: descuido e falta de conhecimento

Esse cuidado, a busca da palavra correta para a função precisa, não é uma preocupação apenas dos poetas. Bons prosadores — em ficção e não ficção — se preocupam com o “caráter intelectivo” e “musical” das suas frases.

Muitos escritores contemporâneos, entretanto, desprezam essa questão — e transformam seu texto num fantasma que arrasta correntes e bolas de ferro pela casa. O descuido com as palavras, com sua escolha e organização, sugere também desconhecimento das possibilidades que a língua oferece.

Vejam esta frase, retirada de um autor contemporâneo: “[…] Culpado. Quando sozinho, percebe-se o quanto está decepcionado, mas aliviado”. Não se trata apenas do eco que ressoa em nossos ouvidos como um sino rachado, ado, ado, ado… No fundo, o que se descobre é a falta de habilidade para manejar adjetivos e tempos verbais.

Muitos dirão que é perfeitamente possível um narrador se expressar assim ou de forma até mesmo pior do que essa. Concordo — mas desde que esse linguajar esteja em harmonia com a personalidade, a formação e o contexto social do narrador. Mas, nesse caso, a pergunta que o escritor deve se fazer é: um narrador desse tipo tem realmente algo importante para contar?