O que é uma personagem?

É a pergunta que fazemos quando chegamos ao fim de um livro por qualquer razão admirável: o que é uma personagem? Uma marionete que, durante a trama, percebemos como era manipulada? Uma pequena tirana que surgiu do nada para atormentar o escritor? Ou uma figura que, de forma surpreendente, parece humana?

O escritor inteligente dispensa a primeira opção, pois sabe que, para criar personagens verossímeis e que mereçam a atenção do leitor, precisa, antes de tudo, que elas sejam capazes de agir como pessoas reais, com vontade própria.

(Aliás, esse é, em parte, o problema da literatura niilista: tratar as personagens como idiotas submetidas a um mundo no qual estão condenadas à eterna derrota. E também é o problema da literatura idealista: manipular as personagens como se fossem anjos eternamente destinados à felicidade.)

O escritor com um mínimo de habilidade dispensará, da mesma forma, a segunda opção. Vladimir Nabokov, com sua deliciosa ironia, fala sobre essa fantasia que alguns escritores alimentam, de que seus personagens “fogem ao controle”; ilusão, aliás, diz ele, “mais velha que o mundo”.

Resta a terceira opção, a melhor: criar seres que tenham uma história, um passado que os influencia no “presente” da narrativa e, muitas vezes, justifica suas atitudes. São figuras humanas inseridas num contexto social, capazes de demonstrar suas crenças, dúvidas, inseguranças. São corajosos ou tímidos; expressam seus valores e gostos pessoais; concordam ou discordam dos outros personagens; e falam com voz própria. Possuem objetivos imediatos ou distantes (ou, se forem estúpidas e sem iniciativa, que o enredo explique o motivo desse comportamento).

Na verdade, personagens enraizados em suas próprias vidas e narradores convincentes são os dois grandes centros da narrativa de ficção.

O que é uma personagem?

Personagens enraizados em suas próprias vidas e narradores convincentes são os dois grandes centros da narrativa de ficção.

Entretanto, é muito comum encontrar histórias com personagens suspensos no ar — eles flutuam no éter como se fossem seres angélicos, capazes de viver desligados da vida material.

Isso ocorre quando o narrador, concentrado em falar de suas próprias angústias ou dúvidas, supervaloriza suas sensações e chega a tratar os demais personagens — quando existem — como miragens, figuras sem vida própria. Nesses casos, depois de lermos dez ou quinze páginas da história, fica evidente que, sob uma frágil e inconsistente camada de ficção, só existe narcisismo: a obra é apenas uma desculpa para o escritor falar de si mesmo, nada mais.

Tal exagerada imaterialidade também pode ocorrer por uma deficiência técnica: o escritor não consegue imaginar o espaço em que os personagens se relacionam. E, quando consegue, é como se o ambiente fosse uma tela imensa dependurada no fundo do palco — e não um verdadeiro espaço, com altura, profundidade e largura.

Quando o escritor imagina a cena, ele não deve se concentrar apenas no personagem, mas imaginá-lo introduzido no ambiente — ambiente, aliás, que pode ser hostil ou favorável. É uma tarefa difícil, mas não impossível, pois podemos treinar nossa imaginação para criar espaços tridimensionais. Mas o escritor precisa ter disciplina, persistência.

Esse, aliás, é um dos temas de minha Oficina de Escrita Criativa, cujas aulas começam agora em março.



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