O que um escritor pode aprender com Van Gogh?

Li, faz alguns meses, as cartas de Van Gogh a seu irmão Theo. Há livros assim, que você mantém na biblioteca, reencontra às vezes, e um dia, por motivos inexplicáveis, toma a decisão de ler. Quantos outros livros não me aguardam, ansiosos?

Mas não bastasse o atraso na leitura, deixei minhas anotações de lado — e todos os dias, quando abro o aplicativo que me recorda dos meus afazeres, reencontro o aviso: “Escrever artigos sobre as cartas de Van Gogh”.

Essa é a história de quem não consegue se subdividir em várias pessoas — ou, se preferirem, pois as duas justificativas são válidas, de quem não vive de rendas ou de aluguéis: há sempre novas tarefas; e quando a lista começa a diminuir, tudo não passa de uma ilusão de ótica, pois na verdade ela acaba de crescer.

Mas este é o nariz de cera típico de quem, em pleno feriado, decidiu escrever sobre as cartas de Van Gogh — contudo, ainda hesita entre o artigo, fumar um cachimbo, ler, caminhar ou ouvir Brahms.

Outro motivo, talvez, para a hesitação é a variedade de temas que as cartas oferecem. Dividi minhas anotações em três grupos distintos e ainda sobrou material sugestivo para alguns textos menores. É de uma dessas notas isoladas que falarei aqui (como vêem, finalmente vamos começar o texto).

Desatenção ou incapacidade?

Quando, em 1885, Van Gogh passa três dias visitando o Rijksmuseum, certa pintura chama sua atenção de maneira especial: um quadro de Frans Hals que havia sido terminado por Pieter Codde — The meagre company, também conhecido como A companhia do capitão Reynier Reael e do tenente C. M. Blaeuw em Amsterdã.

Quem leu as cartas de Van Gogh sabe da sua cuidadosa atenção às cores e às formas da vida. E de como ele consegue não só pintar, mas também descrever, de maneira excitante, o que vê.

‘The meagre company’

‘The meagre company’

A capacidade de observar é, de fato, a principal qualidade do artista — e, portanto, também do escritor. Pode parecer óbvia, a alguns, essa afirmação, mas grande parte dos problemas enfrentados por escritores nasce da desatenção ou, nos casos extremos, da incapacidade para perceber que a realidade é, antes de tudo, não o que se passa nas suas mentes, mas a paisagem do cotidiano na qual eles estão irremediavelmente inseridos, ainda que não queiram ou, pior, ainda que desprezem o mundo.

Nesse sentido, o comportamento de Van Gogh é irrepreensível. Ele não menospreza nenhum pormenor. Logo nas primeiras linhas da carta, questiona o irmão se ele, quando visitou o museu, “prestou atenção” no quadro de Hals e Codde, pois está convencido de que “só este quadro isolado — sobretudo para um colorista — vale a viagem a Amsterdã”.

Roteiro para escritores

As minuciosas observações que Van Gogh faz no transcorrer da carta servem como um roteiro ao escritor que se recusa a prestar atenção — ou que considera suas próprias divagações melancólicas mais interessantes que a realidade.

Van Gogh concentra-se especialmente na figura do porta-estandarte que se encontra no lado esquerdo do quadro: “Esta figura é, dos pés à cabeça, cinza, eu diria cinza-pérola —, de um tom neutro característico, obtido, acho, com laranja e azul misturados de forma a se neutralizarem; fazendo variar este tom fundamental, tornando-o aqui um pouco mais claro, lá um pouco mais escuro, o pintor chegou a dar a impressão que a figura inteira é toda num único e mesmo cinza”.

A forma como Van Gogh descreve mostra que ele não era apenas um conhecedor das técnicas de pintura, mas também um “leitor” cuidadoso — não por outro motivo, numa das cartas, ele compara Rembrandt a Shakespeare.

Van Gogh prossegue: “Contudo, os sapatos de couro são de uma matéria diferente que as meias, que diferem dos calções, que diferem do gibão – cada vez uma outra matéria é representada, todas muito diferentes em cor – e tudo no entanto é pintado com cinza de uma única e mesma família”.

O porta-estandarte

O porta-estandarte

O detalhamento, entretanto, ainda não terminou. O olhar do artista deve captar o máximo de informações. Ele reconhece que talvez esteja se estendendo demais, pede “calma” a seu irmão e continua: “Não é tudo. Neste cinza, ele vai colocar azul e laranja e um pouco de branco; o gibão é ornado com fitas de cetim de um azul divinamente tênue, a cinta e a bandeira são laranja – um colarinho branco. Laranja-branco-azul, como eram então as cores nacionais – laranja e azul justapostos, a mais maravilhosa gama; sobre um fundo cinza, estas duas cores – que eu chamaria de pólos elétricos (sempre em matéria de cor) – sabiamente misturadas e reunidas de maneira a se destruírem neste cinza e neste branco”.

Van Gogh poderia ser um ótimo escritor. Se não tivéssemos a imagem da pintura, poderíamos reconstruí-la parcialmente, não em seus detalhes históricos, mas nossa imaginação absorveria as palavras e poderíamos captar a variação e a mescla das cores. Não é esse o objetivo do escritor? Todo escritor tem, assim espero, consciência de que não conseguirá repetir, na mente de seus leitores, exatamente aquilo que pretendeu contar — mas que a impressão central ficará; será marcada, fixada, apesar das inevitáveis variações de cada imaginação.

Nosso missivista, entretanto, não está satisfeito. Algumas linhas ainda são necessárias para dar conta do seu entusiasmo. Ele se volta, então, ao conjunto da pintura: “Mais adiante, ele introduziu neste quadro outras gamas laranja sobre outras azuis, mais adiante ainda os mais belos pretos sobre os mais belos brancos; as cabeças – uma vintena – fervilhando de espírito e de vida, e perfeitas! E uma cor! E as figuras de toda essa gente, soberbas até os pés”.

Da mesma forma, o escritor deveria ser capaz de migrar do particular ao geral — e de, quando possível, mostrar como esses níveis de detalhamento se justapõem, ou melhor, se intercomunicam, apoiam-se mutuamente, criando a imprescindível sensação de realidade.

Observação extrema

A figura do porta-estandarte seduziu Van Gogh — e ele retorna ao homem prateado, de maneira a enfatizar suas impressões: “Mas raras vezes eu vi figura mais divinamente bela que a daquele homenzinho laranja-branco-azul no ângulo esquerdo. É algo único. Delacroix se entusiasmaria – e se entusiasmaria ao extremo. Eu fiquei literalmente paralisado”.

Não é o fim da carta. Ela se estende por vários parágrafos e merece ser lida atentamente, como toda a correspondência de Van Gogh.

Mas, deste trecho, devemos tirar uma lição: a arte nasce da observação extrema, de observar com alto grau de intensidade. Esse exercício permite ao escritor ampliar sua consciência a respeito do que vê — e tornará mais fácil, para cada elemento que estiver claro em sua consciência, encontrar a palavra correspondente, o vocábulo mais adequado.