os que nunca morrerão

Os que nunca morrerão

Não me recordo de tê-la visto um único dia sem o vestido preto. Altiva, digna, afável mas imperiosa, o luto era seu emblema, o pendão de nobreza por meio do qual ostentava seus valores — os que nunca morrerão.

Ela não se escandalizava por saber que era próprio da maioria corromper-se, mentir, difamar. Não lhe parecia estranho que seus iguais se reduzissem a algumas poucas pessoas, e demonstrava, em cada gesto, estar além das mesquinharias.

Nunca permitiu que o desdém manchasse sua superioridade. Era a mesma com a japonesa que, no mercado, lhe vendia frutas,

os que nunca morrerão

Minha bisavó paterna, Dª Nenê.

com a lavadeira baixinha e rubicunda que a visitava semanalmente, com os notáveis da cidade. Eu pedia sua bênção, beijando a mão perfumada, não para repetir um hábito, mas para adentrar de algum modo àquele mundo sóbrio, delicado e regenerador que ela comandava.

O ceticismo lhe caía tão bem quanto a redinha com que prendia os cabelos grisalhos; e do alto dos seus noventa anos ela me ensinava que medir os homens a distância, sem apegar-se às estreitezas de espírito, era o imperativo da fidalguia e, principalmente, da liberdade. Conceder todos os obséquios — e raramente pedir um favor em troca; ser amável com quem lhe solicitasse atenção, mas nunca mendigar gentilezas; e, acima de tudo, ordenar a conduta segundo o lema imemorial que ela repetia: Noblesse oblige.

Assim a mecânica ordinária do mundo dissolvia-se frente à dignidade de minha bisavó, cujo poder neutralizava a rudeza e todas as formas de incorreção.

Seu túmulo é um dos poucos a que eu me dirigiria hoje, repetindo a peregrinação que ela própria empreendeu, semanalmente, para rememorar o primogênito morto aos 46 anos. E de joelhos, aos pés do sepulcro, eu lhe agradeceria pelas lições transmitidas com brandura e sutileza, pelo asteísmo de sua fala, que desmontava falsas certezas, e pelos cafés servidos na velha louça inglesa ao final da tarde, quando, sentados na pequena cozinha, visitávamos o mundo empunhando a lanterna de Diógenes.


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'Os que nunca morrerão' have 7 comments

  1. 3 novembro, 2015 @ 15:53 Vitor Colivati

    Quando um texto é bem redigido, ele traz, de alguma forma, não sei o porquê, uma sensação agradável. A leitura parece fluir, e fica aquela impressão do texto ser, hum, como posso dizer, musical. Não sei bem se a palavra musical é a certa, mas é como se ele tivesse um ritmo.

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  2. 3 dezembro, 2015 @ 4:27 Roger França

    Já tinha me deliciado com alguns outros textos seus, mas esse foi o estopim da minha admiração. Belo blog, parabéns.

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  3. 14 fevereiro, 2016 @ 10:07 Alexandre de Jesus

    Simplesmente lindo! É de fazer chorar sem saber por quê. Muito obrigado por dividir conosco essa maravilha.

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