Ovídio e suas lamúrias

Quando Ovídio foi condenado pelo imperador Augusto ao exílio no litoral do Mar Negro, de lá enviou a Roma duas obrasTristia (Cantos tristes) e Epistulae ex Ponto (Cartas Pônticas) — cujo objetivo era comover familiares, amigos e o imperador, de maneira que Augusto lhe permitisse viver o degredo em local mais aprazível, e os demais não só lembrassem dele, mas, principalmente, abraçassem a defesa de sua causa.

Talvez a pena nos comova de forma exagerada. Mas, assim como Ovídio, estamos desprotegidos sob um governo corrupto e um Estado cujas instituições são precárias. Que poder real tem o cidadão perseguido por uma autoridade injusta? Ele não sofrerá a pena do exílio, mas se não for amigo das pessoas certas, se não dispuser de recursos para contratar advogados, se de alguma maneira for silenciado, quem se preocupará com ele? Alguém realmente acredita que, neste país, estamos livres do arbítrio?

Mas voltemos aos textos de Ovídio.

Duas das Cartas Pônticas são enviadas a Fábia, a jovem viúva com quem Ovídio se casara. Na primeira, ele diz que seus sofrimentos o tornaram velho antes do tempo, e que a esposa se assustaria com a degradação de seu corpo. De fato, deve ser terrível envelhecer prematuramente. Mas Otto Maria Carpeaux está certo ao definir Ovídio como “excessivamente sentimental”, acusando-o de ter contaminado a literatura com assuntos tediosos.

A carta termina com a suposição de que Fábia, agoniada pelos sofrimentos do esposo, também teria envelhecido. Essa ênfase na suposta decadência da mulher é construída com eloquência, mas ressuma afetação e expõe o desejo egoísta que o poeta tenta esconder: o de que sua esposa o acompanhe na degradação física.

A segunda carta é mais curiosa. Cansado de esperar, Ovídio repreende a esposa:

Não é, pois, estranho que, buscando o término de todos os meus males, eu peça sem cessar outra plaga. Mais admirável é que tu, minha esposa, não ma tenhas obtido e que possas conter as lágrimas por minhas desgraças. Perguntas-me o que fazer? Por que não o procuras tu mesma? Tu o encontrarás, se realmente quiseres encontrá-lo. Querer é pouco: para chegares ao alvo, convém que o desejes com um afã capaz de abreviar o teu sono.

Tal insistência torna-se patética ao longo da carta. Ovídio chega a ordenar que Fábia se empenhe inclusive porque, em certos poemas, ela fora citada como exemplo de esposa — e, portanto, deveria provar que os elogios do marido são verdadeiros. A carta se resume a uma sucessão de exigências, nas quais Ovídio apela até mesmo à lei matrimonial. A cobrança é evidente:

Eu não sou indigno e, se quiseres confessar a verdade, deves a meus méritos algum agradecimento que, certamente, me devolves com grande usura.

O poeta deixa claro qual sentimento o impulsiona. Em determinado trecho, percebe-se que ele recebera notícias pouco agradáveis sobre o comportamento da esposa:

Os ditos indiscretos não podem prejudicar-te, embora o desejem.

Ovídio

Ovídio

Ao receber a carta, Fábia deve ter feito o oposto do que seu marido cobrava. Seria a reação mais previsível diante de um texto no qual o desespero se transforma em presunção, em arrogância. O pior é que, ao abusar dos recursos que a retórica oferece, Ovídio também exorbita da paciência de seus leitores.

O que falta a Ovídio é nobreza de caráter. Ou melhor: altivez. Não sabe aceitar seu destino — e perde-se em auto-acusações, humilhando-se inutilmente, desdobrando-se em elogios exagerados àqueles que poderiam ajudá-lo.

Choramingas e resmungão, implora inclusive aos que o desprezam. É vergonhoso. E seu comportamento torna-se vulgar quando lembramos que ele não foi despojado dos próprios bens. Maria José de Queiroz — em seu belíssimo Os males da ausência, ou a literatura do exílio — relata que o poeta “mandara vir criados e um secretário de Roma” e que “recebera boa soma em dinheiro”. E mais: “a administração da província não o via como condenado a pena perpétua. Nem persona non grata. Isentaram-no de impostos e nomearam-no para o posto de agoníteta — presidente dos jogos sagrados”.

Como afirma Carpeaux, Ovídio “não é um poeta sério”. Apegou-se ao tema mais próximo e mais fácil — o culto exagerado de sua dor — e destrambelhou a maltratar seus leitores com sua lengalenga, com “o absurdo da sua pretensão e a tola ingenuidade com que dá voltas e mais voltas em torno de si mesmo, de suas angústias e, também, o que é mais triste, de suas esperanças” (Maria José de Queiroz).

Ovídio mostrou-se incapaz do que os estóicos e Nietzsche chamaram de amor fati, isto é, a aceitação valorosa do próprio destino — aceitação que não é resignação, mas uma forma de coragem. Preferiu entregar-se à escrita lamurienta, desprovida de honra.