Da palavra única à arquitetura do texto

Dentre a multidão de palavras disponíveis, o escritor escolhe, ao elaborar seu texto, as melhores palavras, sempre buscando “a palavra única para a ideia única”, diz Walter Pater em “Estilo”, ensaio publicado em 1888, que comecei a analisar há poucos dias.

A reflexão sobre “a palavra única para a ideia única” não é desconhecida aos leitores das cartas de Gustave Flaubert. São elas que servem de inspiração a Pater em alguns trechos da sua argumentação. O ensaísta insiste na necessidade de encontrar a palavra, a frase, o parágrafo “absolutamente adequados à singularidade da representação mental”, que ele chama também de “visão interna do autor”. E tem razão em fazê-lo, pois muitos autores confiam numa espécie de escrita automática — e não se esforçam para realizar continuamente o processo mental do verdadeiro escritor, o processo

Palavra única

“É preciso haver determinado o seu próprio sentido de maneira precisa”, afirma Pater. “Então, se estamos diante de um artista, ele dirá ao leitor: quero que você veja o que eu vi.”

por meio do qual deve-se buscar a identidade plena entre ideia e palavra, o que significa explorar a carga semântica dos vocábulos e, muitas vezes, ampliá-la.

Mas as razões de existirem textos supérfluos ou simplistas, que só conseguem repetir o senso comum — prática “abominável” para o “autêntico artista literário”, diz Pater —, não se prendem apenas à escolha das palavras. Textos desse tipo desprezam, ainda citando Pater, o mais importante em qualquer tipo de arte: a estrutura.

Uma obra só pode ser considerada “arte literária” se possuir um “conceito arquitetônico”, conceito que “antecipa o final no princípio e nunca o perde de vista — e em cada parte permanece consciente de tudo, até que a última frase, sem desprezar seu próprio vigor, não faz senão desvelar e justificar a primeira frase”. Ou seja, é preciso “dar à frase, à oração, ao elemento estrutural, à composição inteira, uma unidade entre tema e forma”.

Essa é a lógica, essa é a coerência que deve estar subjacente não só nas linhas de composição, mas também na escolha das palavras. “Na arquitetura literária”, diz Walter Pater, “o contingente e o necessário se submetem à unidade do todo”. A obra pode ser “intrincada, austera, argumentativa, imaginativa”, mas, do princípio ao fim, deve prevalecer nela a fidelidade a uma só imagem, “a uma visão inteira”. Escrever, portanto, está muito longe de ser mera “acumulação de palavras, motivos ou elementos da trama”.

“A luta do verdadeiro artista”, sintetiza Pater, “é contra a estupidez que é insensível ao conteúdo e contra a vulgaridade que é insensível à forma”.

Palavra única, estrutura e autoconhecimento

Mas como se chega a essa visão arquitetônica do todo? Pater diz que um “sentido forte e avantajado do mundo” precede essa habilidade. Só tal sentido dá ao escritor o domínio rigoroso que garante a composição autêntica. Só ele permite ao escritor avançar na confecção do seu texto, “ajustando as partes, sustentado e às vezes restringido pelo ardor criativo, retificando os descuidos do seu primeiro rascunho, voltando sobre os seus passos para proporcionar ao leitor um sentido de progresso seguro e equilibrado”.

Ter seu próprio estilo trata-se, portanto, como sempre afirmo, de uma questão de autoconhecimento e de maturidade — “é preciso haver determinado o seu próprio sentido de maneira precisa”, afirma Pater. “Então, se estamos diante de um artista, ele dirá ao leitor: quero que você veja o que eu vi” — pois o estilo, em todas as suas variedades, “deve encontrar sua justificação na fé que o escritor tem no significado da sua própria escrita”.

Conhecer a si mesmo, alcançar uma visão de mundo — assim o escritor se coloca acima das panelinhas, das escolas, dos movimentos; assim ele aprende a não valorizar em excesso as convenções acadêmicas, a não aceitar modelos esgotados e, também, a não se prender a exageros, aos artificialismos típicos das vanguardas. “A luta do verdadeiro artista”, sintetiza Pater, “é contra a estupidez que é insensível ao conteúdo e contra a vulgaridade que é insensível à forma”.



'Da palavra única à arquitetura do texto' has no comments

Be the first to comment this post!

Would you like to share your thoughts?

Your email address will not be published.