A redescoberta do tempo

Desde que voltei a escrever com canetas-tinteiro — e passei a usar meu processador de textos favorito, Scrivener, como uma ferramenta em que copio e reviso os rascunhos —, tenho pensado a respeito do uso do tempo, mas não seguindo a chave tão difundida hoje, quando a “produtividade” se tornou uma das semideusas modernas.

Há vários meses está claro para mim que a avalanche de estímulos das redes sociais, dos celulares e da web constantemente ligada esconde um perigo: perder-me nessa tempestade de comentários e notícias — todos urgentes, todos necessários, todos imprescindíveis, exigindo atenção infinita.

Voltar ao papel e às canetas-tinteiro foi a decisão certa para quem sente necessidade de mais silêncio, distância do corriqueiro, preocupação com o essencial. Foi a solução para me livrar de tantas distrações, da falsa urgência que a web e as redes sociais nos impingem.

redescoberta do tempo

Encontro, no centro da solidão, a resposta para desacelerar o ritmo dos pensamentos e redescobrir a essência da vida intelectual.

Retornar à escrita tradicional, em que desenho as palavras sobre um bloco de papel, recriou o vínculo entre escrever e pensar: as ideias surgem com uma naturalidade que eu não sentia há anos — e a própria vontade de escrever é maior. Além disso, minha decisão incluiu nova etapa no processo de escrita: agora, na passagem do manuscrito para o processador de texto, é possível uma revisão ainda mais acurada.

Afastar-me do computador, permanecer off-line, significa fugir do que me distrai. O artigo de David Leonhardt — no New York Times de 18 de abril — trata dessa questão sob a ótica de George Shultz, secretário de Estado de Ronald Reagan na década de 1980: ele conseguiu a façanha de se isolar durante 1 hora por semana. Fechava-se em seu escritório, com um bloco de papel e uma caneta, e só podia ser interrompido por duas pessoas: sua esposa e o presidente. Segundo Shultz, essa hora de solidão era a única maneira de encontrar tempo para pensar sobre aspectos estratégicos do seu trabalho. Se ele não fizesse isso, seria constantemente tragado para questões táticas, impedido de se concentrar em questões maiores — e a única maneira de fazer algum trabalho realmente importante é encontrar tempo para refletir sobre as questões maiores.

Meu cotidiano não exige — com absoluta certeza — o nível de preocupação de um secretário de Estado, o que me permite ampliar a “hora Shultz”: não um intervalo semanal, mas diário; não apenas 1 hora, mas várias. Um tempo em que abdico da capacidade de me comunicar, de me informar, de me sentir na obrigação de ter opiniões a respeito de tudo — em que me dedico à solidão, ao ócio de pensar, ruminar ideias.

Reaprendo, assim, a ficar quieto na minha biblioteca. É aqui, no centro da solidão, que descubro a resposta para desacelerar o ritmo dos pensamentos e reencontrar a essência da vida intelectual: agir de forma contemplativa, buscar conexões etéreas, alcançar regiões inesperadas e desconhecidas, deixar que a Sabedoria fale.