7 reflexões sobre a arte de escrever

7 reflexões sobre a arte de escrever

Estas 7 reflexões sobre a arte de escrever são uma releitura dos vários textos em que trato desse tema — e que podem ser encontrados aqui no site. Aprofundo neste artigo algumas questões e recupero outras, que avalio como essenciais:

1. Olhos abertos à realidade

Observar é fundamental. O escritor precisa ser um mestre da atenção. Vivemos acreditando que a realidade se oferece a nós de forma evidente — mas a verdade é que nem tudo é simples. Por trás de cada reação humana, de cada gesto, há influências, escolhas, dúvidas, certezas, interesses, desejos, temores. O bom escritor dialoga com todos esses elementos, tenta descobri-los, imagina-os, enquanto exercita essa qualidade imprescindível: observar.

Mas não se trata de uma observação passiva. O escritor deve se colocar na pele das pessoas e tentar compreender suas reações — e, a seguir, imaginar como ele próprio reagiria em situações semelhantes. Muitos têm o poder inato de fazer esse exercício — mas não é impossível treinar tal capacidade de observação.

A realidade inteira deve servir ao trabalho do escritor: dos sonhos a um diálogo rápido no ponto de ônibus; das lembranças da infância às decepções, incertezas e alegrias que ele testemunha ou experimenta. É preciso permanecer atento à vida; e abandonar a ideia, tão difundida hoje, de que “só é realidade o que eu considero real” — verdadeiro absurdo.

Sendo curioso, o escritor alimenta sua imaginação. Entender o estranho, o diferente, o outro que nos perturba ou encanta, ajudará o escritor não só a conhecer seu próprio eu, mas também a criar personagens convincentes, complexos.

7 reflexões sobre a arte de escrever

Vivemos acreditando que a realidade se oferece a nós de forma evidente — mas a verdade é que nem tudo é simples.

Sim, jamais desprezar a realidade. Mas não esquecer, como afirma Henry James, que “a experiência nunca é limitada e nunca é completa”. Para esse genial romancista, a experiência é semelhante a “uma espécie de vasta teia de aranha, da mais fina seda, suspensa no quarto da nossa consciência, apanhando qualquer partícula do ar no seu tecido”. Ou seja, a experiência — a abertura ao real, deve ser “a própria atmosfera da mente”, ela deve levar “para si mesma os mais tênues vestígios de vida”, deve “converter as próprias pulsações do ar em revelações”.

2. Para que servem as anotações?

A uma carga tão intensa e constante de observação deve corresponder a necessária desconfiança em relação à capacidade da memória. Dizendo de forma mais simples: nunca confiar na memória, anotar tudo, cada inspiração, cada ideia.

O meio não importa — cadernetas ou celulares, blocos ou tablets. O fundamental é gravar tudo o que desperte a atenção. (De minha parte, retornei ao papel e à caneta-tinteiro, por serem mais prazerosos e mais seguros.) E anotar sem se preocupar com a lógica, com uma possível relação entre as notas. Não se angustie se, no fim do dia, as anotações parecem incoerentes, sem nexo. Cada nota é um universo particular, que poderá servir para uma ou várias histórias — ou não.

Mas é importante guardar todas as notas. Se possível, em algum tipo de arquivo temático — podem ser simples envelopes —, e revê-las obedecendo a determinada periodicidade ou quando se precisar de uma ideia. Coloque-as sobre a escrivaninha: podem surgir inesperadas tendências ou o esboço de uma trama. A nota não utilizada hoje talvez se torne, no futuro, o tema de um conto, a cena de um romance, o núcleo de um ensaio.

3. Ambiente de trabalho e tempo

É importantíssimo criar um espaço no qual se possa escrever sem interrupções — um espaço que seja adequado ao processo criativo. O escritor necessita de quietude interior — e alguns alcançam esse estado de concentração em meio ao barulho. Nem todos apreciam o silêncio — alguns precisam de um ruído de fundo, como músicas ou o burburinho do café, do bar. O importante é encontrar o espaço em que você se sinta predisposto à escrita.

Sob meu ponto de vista, o escritor deve se afastar da agitação social, da euforia urbana, da fugacidade das panelinhas e das mesas de bar. Silêncio e recolhimento são fundamentais se desejamos descobrir um método de trabalho, um processo organizado que permita à criação fluir com o mínimo de obstáculos. Tal método, quando repetido e aprimorado, permite ao escritor aproveitar o tempo — isto é, não malgastar o que, por si próprio, se dissipa com facilidade.

O trabalho criativo demanda tempo — e, portanto, uma forma especial de ócio, que não é a completa ausência de perturbações ou inquietações da mente. Ao contrário, o corpo pode passar a ideia de inatividade, mas a mente trabalha de forma profusa — se não fosse assim, o Ponto 1 deste texto, o exercício da observação constante, seria impossível.

4. Disciplina e presença completa

Mais que estabelecer um período de tempo para o trabalho — enquanto se produz um conto, um romance, um ensaio —, deve-se definir um número diário de páginas. Tal volume de trabalho precisa ser encarado de forma draconiana — e, claro, o escritor terá o bom senso de não se impor metas impossíveis. É fundamental estabelecer uma disciplina — com local, horário e a previsão de quanto se escreverá diariamente —, pois não se trata de permanecer horas devaneando diante do papel em branco, mas de escrever.

Nos períodos de ócio ou de intensa atividade, o fundamental é “estar completamente presente”. Essa, aliás, é a regra da vida inteira, não só do escritor, como aconselha o crítico e poeta norte-americano Mark Van Doren: “Existe algo que podemos fazer, e as pessoas mais felizes são aquelas que conseguem fazê-lo no limite máximo de sua capacidade. Nós podemos estar completamente presentes. Podemos estar inteiros aqui. Podemos… dar toda a nossa atenção à oportunidade que está diante de nós”.

Em certa medida, passado e futuro deveriam ser estranhos para o escritor — só alimentando tal estranheza ele pode se abrir a todas as potencialidades que o presente lhe oferece.

5. Conviver com o censor

O escritor também deve ter claro que seu trabalho é um contínuo exercício de superação do medo. Por trás da sua mente sempre existirá o juiz incansável que ficará sugerindo o que as pessoas falarão ou pensarão a respeito dos seus textos.

7 reflexões sobre a arte de escrever

O meio não importa — cadernetas ou celulares, blocos ou tablets. O fundamental é gravar tudo o que desperte a atenção.

Se tal censor existe em todas as consciências, nas mais pequenas decisões, estará ainda mais presente no trabalho criativo. Aceitar esse censor é o primeiro passo para saber utilizá-lo em nosso próprio benefício. Ele não é de todo mau, se pensarmos em quantas idiotices já nos impediu de fazer — e escrever. O homem — e o escritor — que não tem nenhuma autocensura é também o que não possui nenhuma autocrítica.

Trata-se, assim, de aceitar a sentença do juiz — mas pelos motivos corretos. E, entre estes, não se encontra a opinião dos outros.

Da mesma forma, é preciso aprender a conviver com o desconforto que certas ideias causam, com o desânimo, com a dúvida, com pensamentos que vão e voltam, irrequietos, muitas vezes prontos a colocar o escritor diante de decisões angustiosas, labirínticas.

6. Escrever, apenas

O escritor deve entender seu ofício sob uma perspectiva prática: da mesma forma que aprende a contornar ou ceder ao juiz interior, não deve se prender aos seus próprios limites. Ou seja, no ato da escrita, no momento da criação, não deve preocupar-se com dúvidas gramaticais, com lacunas inevitáveis da formação intelectual, ou deixar-se desanimar pela insegurança em relação à qualidade do seu texto.

Precisa aprimorar-se, claro, principalmente estudando bons escritores, mas com a certeza de que a ausência de perfeição absoluta não é um problema seu, mas de todos.

A solução é escrever. Escrever sempre. Quanto mais produzir, mais se aperfeiçoará. Deve lutar para ser ótimo — mas sem permitir que o perfeccionismo destrua sua vontade de escrever.

Erro comum é tentar enriquecer, de maneira artificial, o próprio vocabulário ou a forma das frases, dos períodos. O escritor constrói seu estilo de forma gradativa, com paciência. Antes de tudo, deve ser ele mesmo — deve permitir que sua personalidade fale — e escrever no ritmo dela, com as palavras dela.

Engana-se quem pensa que produzir literatura é escrever “bonito” ou “difícil”. Na verdade, o primeiro objetivo do escritor é contar sua história de forma clara, da melhor maneira que puder. Assim, iniciado o período diário de trabalho, o escritor deve, apenas, escrever. Não deve voltar sobre cada frase, corrigindo-a, melhorando-a. Isso fica para uma segunda fase, quando reescreverá, desbastando o texto, acrescentando novas ideias, novas cenas — ou não.

Na elaboração do primeiro rascunho, pouco importam os erros de português ou as imprecisões do pensamento, o tamanho das frases ou a lógica da paragrafação. Na primeira etapa, deve-se apenas escrever. Escrever sem preocupar-se, também, com a originalidade. Lembre-se do que André Gide afirmou: “Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo”. A sua forma pessoal de “dizer de novo”, de dizer com o seu próprio estilo, se firmará, com certeza, a cada novo texto.

7. Ter um plano — e não escrever para todos

O principiante pode se sentir mais seguro seguindo duas sugestões: primeiro, imaginar um leitor. É mais fácil alcançar objetividade quando não se escreve para todos, o que equivale a escrever para qualquer um. Não se trata, contudo, de escrever para agradar a esse leitor ou grupo de leitores; trata-se apenas de ter uma referência. À medida que a história for construída, o escritor talvez acabe se divertindo em contrariar o leitor imaginário.

Em segundo lugar, deve ter um plano — o mais minucioso possível. Mas sentir-se livre para mudá-lo, pois nenhum escritor sabe, com todos os detalhes, começo, meio e fim da sua história. Além disso, o escritor tem poder absoluto sobre sua criação e seus personagens — o que significa que não precisa se preocupar em escrever seguindo a ordem cronológica do seu plano. Pensando nos personagens, pode matá-los e, meses depois, contar seus nascimentos.

***

De resto, ninguém mais do que o escritor acredita no poder das sinapses — os neurônios conversam entre si, criam conexões inusitadas a cada milésimo de segundo. Não esqueçamos o evento sináptico experimentado por Victor Hugo: explorando a Catedral de Notre-Dame de Paris, encontrou da palavra “fatalidade” gravada à mão numa parede; a forte impressão causa por essa descoberta desencadeou o processo de criação do romance O corcunda de Notre-Dame.



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