sedução do início

A sedução do início em Hermann Broch

Talvez seja impossível desenvolver uma teoria dos inícios na obra de ficção, dificuldade decorrente do caráter multíplice que marca os começos — mas podemos descobrir os elementos que compõem a sedução do início.

Um bom começo pode não só empolgar o leitor, mas prendê-lo numa rede de interrogações e inquietudes — inocular em seu coração os sentimentos e dúvidas do protagonista e, principalmente, os do próprio narrador, cuja voz ocupa papel central na história inteira. Seu tom, seu ritmo, a cadência construída pelas frases e captada por nossa atenção — esses elementos concebem a arquitetura em que vamos penetrando linha a linha, ainda inseguros, adaptando-nos às modulações do discurso, às escolhas vocabulares, à forma das frases e dos parágrafos, muitas vezes inesperadas, estranhas.

sedução do início

Hermann Broch

O que seria dos escritores sem a boa vontade do leitor? O que seria da literatura sem o leitor disposto a, de certa forma, mimetizar-se num novo estilo, deixar-se enredar na lógica imprevisível que o abraça em lenta ou abrupta sedução?

Quantos livros não exigem de nós uma disposição irrestrita se queremos a recompensa, muitas vezes conquistada apenas dezenas ou centenas de páginas depois do início? É o caso, para muitos, não para mim, de “A Morte de Virgílio”, do austríaco Hermann Broch. O leitor acostumado — ou melhor, mal acostumado — a frases curtas e parágrafos incisivos talvez se perca no vagaroso ritmo do longo período que abre o livro. Mas se, ainda confuso, reler e reler, submetendo-se à respiração do narrador, verá que a pontuação engendra, no centro da sua mente quiçá intranquila, agitada, a serenidade do mar, o ritmo aparentemente suave da vida — que, logo descobrirá, esconde sofrimento, aniquilação e, no final, reencontro com o Verbo:

Leves e de um azul metálico, movidas por uma brisa contrária suave, quase imperceptível, as ondas do mar Adriático rolavam ao encontro da armada imperial, quando esta, tendo à esquerda as colinas rasas e cada vez mais próximas da costa calabresa, se dirigia para o porto de Brindisi e então, quando a solidão do mar cheia de sol, mas mesmo assim tão prenunciadora de morte, deu lugar à pacífica alegria da actividade humana, quando as águas, suavemente brilhantes com a proximidade da existência de homens e das suas casas, se povoaram de variadíssimos barcos, uns que também se dirigiam para o porto, outros que dali saíam, então, quando os barcos de pescadores com as suas velas castanhas estavam precisamente a sair dos pequenos molhes de todas as inúmeras aldeias e povoações ao longo da orla salpicada de branco, para se dirigirem à sua pesca nocturna, então a água ficou quase tão lisa como um espelho; como uma madrepérola, abrira-se por cima a concha do céu, anoitecia, e sentia-se o cheiro a lenha das lareiras, sempre que o vento trazia os sons da vida, uma martelada ou um grito, desde a costa até ao mar. (Tradução de Maria Adélia Silva Neto)

Como vemos, Hermann Broch domina a sedução do início. Trata seu leitor como cúmplice — e não como visita indesejável.



'A sedução do início em Hermann Broch' has 1 comment

  1. 6 maio, 2016 @ 17:49 Geraldo

    E com certeza, professor, existe também o fator da minha identificação existencial, como leitor, com as experiências humanas narradas e refletidas no texto. Já aconteceu muito comigo de uma narrativa me parecer seca, opaca e pouco envolvente.

    Mas depois de certo tempo, certas vivências ocorridas ou uma maior atenção a um ou outro aspecto da minha vida, fizeram-me voltar aos mesmos textos – antes áridos e impalatáveis – com um novo interesse.

    Já, como escritor, tento me perguntar o tempo todo: porque quero contar isso? Que correspondência isso tem com o meu coração, porque me impressiona? É uma impressão verdadeira que me deixa atônito, boquiaberto, ou é uma observação trivial e banal? E porque isso me causa espanto, me intriga e inquieta, a ponto de ser quase impossível conter a vontade de partilhar tais impressões?

    E depois? Porque isso interessaria ao meu leitor? O que há de semelhante em nossa comum condição e experiência humana, que o levaria a considerar isso que vou contar, relevante para ele?

    E por fim, vem o mais difícil, para mim. Como tornar o leitor interessado nisso? Que palavras usar, que escolhas estéticas fazer? Como não contar de modo trivial aquilo que me fez arregalar os olhos? Como tornar a minha linguagem o mais transparente e adequada possível, à autenticidade da minha impressão sobre a realidade, de modo a estabelecer um diálogo intenso e vivo com o meu leitor, uma incursão compartilhada sobre a experiência, que nos mantenha cheios de interesse pela vida?

    Essa é a minha maior angústia como autor.

    Reply


Would you like to share your thoughts?

Your email address will not be published.