solidão e estoicismo

Solidão e estoicismo — fragmentos de um escritor

Sempre que releio o ensaio “Fragmento de um diário do homem”, de Gaston Bachelard (em O Direito de Sonhar), encontro intuições que talvez sejam, como afirma o autor, próprias do exercício de filosofar, mas que, para mim, resumem a necessidade de solidão e estoicismo que caracteriza o exercício da escrita, a vida de quem se dedica às construções da imaginação.

A cada linha, substituo “filósofo” por “escritor” ou “ficcionista” — e descubro que o sentido do texto se amplia, parece ganhar sua verdadeira razão.

Bachelard inicia seu texto com estas frases:

Para um filósofo, as primeiras páginas de seu livro são difíceis e graves, pois elas o engajam demasiadamente. O leitor as quer

solidão e estoicismo

“Na ordem do espírito, começar é ter a consciência do direito de recomeçar.” — Gaston Bachelard

plenas, claras, rápidas, sem o que as taxa de literatura. O leitor também quer que lhe pareçam diretas, isto é, vinculadas a seus próprios problemas, o que supõe um acordo de espíritos, acordo que é tarefa do filósofo justamente questionar.

Mas não é assim que o escritor vê o começo de seus livros? Como afirmei no artigo “A sabedoria do início”, o fundamental é que o leitor sinta-se participante da história e possa acompanhá-la desde a primeira palavra. A sabedoria do início consiste em imergir o leitor no elemento narrativo. Que as páginas iniciais, portanto, estejam vinculadas de alguma forma ao leitor, e que o autor se encarregue de questionar exatamente esse provável apego ao senso comum.

Bachelard também sabe que todo o trabalho de escrever é, acima de tudo, reescrever. E por isso afirma: “Na ordem do espírito, começar é ter a consciência do direito de recomeçar”. Eu diria, no que se refere ao ficcionista: o dever de recomeçar.

Em suas tentativas de definir a meditação, o filósofo segue compondo trechos que, destinados à esclarecer o ato de filosofar, falam do devaneio característico dos escritores:

[…] Viver de abstrações, que mobilidade! Todos os pensamentos, os graves e os sutis, os apaixonados e os frios, os racionais e os imaginários, fariam parte dessa partida meditada. Duvidar-se-ia com o espírito ou com o coração, sábia ou ingenuamente, metódica ou hiperbolicamente, sincera ou fingidamente. Desde logo far-se-ia o prelúdio das grandes cenas quando o universo e o homem apenas trocam sua luz ou seu desafio, quando o homem se esmaga ou despreza.

Dessa forma o escritor se vê ao enfrentar tudo que lhe surge na mente.

E notem este outro trecho, síntese daqueles momentos de suspensão ou de enleio, ainda que raros, do ficcionista e do poeta:

O tempo seria juventude e morte, fermata. Ele poderia se suspender. Seria aquilo através do qual tudo recomeça, tudo se surpreende. De repente perguntaríamos: onde estou, eu que sou? Em que espaço imaginário meus laços me prenderam? O que é este estranho caráter do pensamento filosófico que torna surpreendente o familiar?

O escritor que sabe observar conhece o segredo de ver para as coisas como se elas fossem sempre novas. Às coisas e a si mesmo. Ele pode repetir com Bachelard:

[…] Se me observo, “eu é um outro”. O recobramento do pensamento é automaticamente um desdobramento do ser. A consciência de estar só é sempre, na penumbra, a nostalgia de ser dois.

Eis-me então uma matéria de dúvida, uma matéria de dualidade que fermenta, pesada ou leve conforme se enriqueça ou se evapore, conforme se escoe ou fuja. Meditando em mim — alegria e estupor — o universo vem se contradizer. É matéria firme e enganadora. Em mim, o universo inteiro vem se isolar, vem enlouquecer a ponto de se acreditar um único pensamento.

A eficácia do espanto

A solidão surge como o complemento mais adequado à observação arguta da realidade. Solidão que, para Bachelard, “é um mundo”. Ele diz:

solidão e estoicismo

“A solidão nos põe em estado de meditação primeira.” — Gaston Bachelard

[…] Todos os nossos devaneios, o da floresta ou do regato, o da vindima e o da colheita vêm logo se fixar aí, nesta árvore, neste feixe. O menor objeto é, para o filósofo [eu diria, o escritor] que sonha, uma perspectiva onde se ordena toda a sua personalidade, seus mais secretos e mais solitários pensamentos. […] Diante de muitos objetos, o ser que sonha sente a sua solidão. Diante de um só, o ser que sonha sente sua multiplicidade.

E logo a seguir, iluminando nosso indispensável convívio com a solidão:

[…] A solidão nos põe em estado de meditação primeira.

Desde que uma alma está bem encerrada em sua solidão, toda impressão é ocasião de universo. É verdade que, daí em diante, ao se confundirem, seus múltiplos universos compõem um mundo complexo. Mas o mundo é intenso antes de ser complexo. É intenso em nós. E sentiríamos melhor essa intensidade, essa necessidade de projetar um universo, se obedecêssemos às imagens dinâmicas, às imagens que dinamizam nosso ser.

Sem solidão não há verdadeira intensidade. Bachelard insiste: “Pela solidão, a meditação tem a eficácia do espanto”.

É o que o próprio filósofo tenta construir na Parte II do ensaio: um exemplo de “meditação sonhadora” — e a apresentação do seu modo de construir um mundo enquanto escava suas impressões de sonhador.

Solidão e estoicismo

Mas o que fazer quando emergem, dessa solidão que é também “cosmos noturno”, antigas dores, mágoas, ressentimentos? O que fazer quando, inserido na própria solidão, o escritor sente seu peso, sua opressão e quer recusá-la? Bachelard mostra-se imperativo:

Então, sê filósofo [sê escritor], sê estóico. E recomeça tua meditação, dizendo à maneira de teu mestre, à minha maneira schopenhaeriana: “A noite é minha solidão, a noite é minha vontade de solidão”.

A ordem bachelardiana não é gratuita, não é uma frase estilosa. Para o filósofo, “a solidão é o revelador fundamental do valor metafísico de toda sensibilidade humana”. Ela nos “desvincula dos ritmos ocasionais”:

Ao nos colocar diante de nós mesmos, a solidão nos leva a falar conosco, a viver assim uma meditação ondulante que repercute por toda parte suas próprias contradições e que procura incessantemente uma síntese dialética íntima.

solidão e estoicismo

“Ao nos colocar diante de nós mesmos, a solidão nos leva a falar conosco, a viver assim uma meditação ondulante que repercute por toda parte suas próprias contradições e que procura incessantemente uma síntese dialética íntima.” — Gaston Bachelard

Assim, a solidão é essencial mesmo quando acarreta tristeza. Para o estóico, “o infortúnio tem um sentido, tem uma função, uma nobreza”:

Pela conversão do desespero à coragem, por súbitas lassidões de felicidade, nasce, no ser humano solitário, uma tonalidade de vida que sucessivamente se acalma e se aviva, irrita ou alegra. Esses ritmos, frequentemente ocultados pela vida social, subvertem o ser íntimo, reerguem o ser íntimo.

O escritor — assim como o filósofo de Bachelard — deve se libertar das “agitações contingentes”. Só longe delas, em sua estóica e feliz disciplina, ele reencontrará “as alternativas de uma vida verdadeiramente dinâmica”.

O filósofo de Bachelard é um homem destinado a “encontrar a clareza em suas contradições íntimas; condenado a definir seu ser pelas hesitações, pelas oscilações, pelas incertezas”. Da mesma forma, o escritor deve estar pronto a enfrentar dúvidas e, muitas vezes, desprezar certos confortos, certos lenitivos.

É próprio do exercício de escrever o convívio nem sempre harmonioso com a insegurança. Mas diante da severidade do seu trabalho, o escritor deve estar pronto a abraçar solidão e estoicismo — e responder, no centro do seu íntimo, parafraseando Bachelard: “A escrita é minha solidão, a escrita é minha vontade de solidão”.



'Solidão e estoicismo — fragmentos de um escritor' have 8 comments

  1. 13 novembro, 2015 @ 21:02 adilson mendes de oliveira

    Texto motivador, posto que a solidão é uma necessidade para quem precisa pensar e descobrir a realidade de sí e das coisas. Neste nosso tempo de excessiva conectividade humana (para troca de vazios),nada mais encorajador os textos que nos estimulam buscar a atitude solitária, para fins de encontros com o que seja essencial.

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    • 14 novembro, 2015 @ 9:34 Rodrigo Gurgel

      Obrigado, Adilson.

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      • 15 novembro, 2015 @ 15:22 adilson mendes de oliveira

        Professor Rodrigo, descobrí seu nome e seu blog por ter assistido alguns vídeos do sr. Olavo de Carvalho.
        Sou um leitor tardio e fragmentado, de leituras esparsas e sem método.
        Vou ler seus livros, pois desejo uma mentalidade coesa e integrada na “interpretação” da vida e de tudo o mais, com coerência e proximidade máxima da realidade. Estou no caminho?
        Obrigado.

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        • 16 novembro, 2015 @ 19:45 Rodrigo Gurgel

          Leia também grandes críticos, Adílson, como Lionel Trilling, Edmund Wilson e Northrop Frye. Um abraço.

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  2. 15 novembro, 2015 @ 20:43 Geraldo

    “(…) o autor se encarregue de questionar exatamente esse provável apego ao senso comum…”

    Gostei desse trecho, porque aprecio aquela definição de filosofia que afirma que ela nasce do espanto e nisso ela tem parentesco com a literatura. Das muitas coisas que você disse sobre os rascunhos que lhe enviei, esta é a que mais ecoa em minha cabeça: “Não suponha uma familiaridade sua e do leitor, com os fatos que você quer contar!”. É como se você me dissesse: “Espante-se!”

    Estava revendo hoje uma entrevista do falecido (e cansativo) Abujamra exortando uma entrevistada a parar de se surpreender. Ela insistindo em afirmar que é bom se surpreender e ele – sem deixa-la argumentar – quase que ordenando que ela não se surpreendesse , como se isso fosse uma sabedoria de vida, que a idade só aperfeiçoa. Ele talvez até tenha alguma razão, se pensamos em tantas inovações pueris e inconsistentes, que muitas vezes são meras reedições e variações dos mesmos velhos temas.

    Mas fiquei com a desagradável impressão de estar ouvindo um homem cansado de viver e, de algum modo decepcionado com novidades às quais um dia se entregou com demasiada expectativa, vendo depois que não passavam de miragens e promessas vazias.

    E é curioso ver como a inovação que vem sob o signo de alguma visão ideológica, tem mesmo essa facilidade de cair logo na mesmice e de envelhecer com rapidez.

    O nosso estado concupiscente (marca da queda, do pecado original, na visão cristã do mundo) nos ilude com miragens de novidade o tempo todo, que depois revelam-se como sendo as velhas feridas de sempre.

    O grande Luigi Giussani vivia alertando seus discípulos e toda gente: “Não se esqueçam da densidade do instante!”.

    E isso me faz pensar que a cultura atual – eivada de laicismo – se acha numa encruzilhada de vida ou morte.

    E seu grande problema e impasse não é apenas que ela não esteja convencida de que a dimensão transcendente da vida, amplia tremendamente as potências da razão e possibilita que o conhecimento se expanda e sirva de fato ao bem das pessoas e do mundo.

    O grande impasse paralisador é que a mentalidade contemporânea se nega a ver que isso já ocorreu historicamente e muitos de seus frutos ainda agora nos alimentam! Se recusa a ver e admitir que a expansão do conhecimento aconteceu exatamente porque o ser humano foi encontrado pela luz do alto que lhe revelou que “Deus dispôs tudo com medida, quantidade e peso” (Sabedoria 11: 21) e “os céus publicam todos os dias a sua glória e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Salmo 18) e “nEle, nos movemos, existimos e somos.” (At 17: 28-30).

    A presença do Verbo de Deus encarnado no mundo, inaugurou uma nova era de conhecimento que brotou de uma descoberta inaudita: O mundo tem sentido, e o sentido se fez homem e mora entre nós, e nEle foram recapituladas e abraçadas todas as coisas, inclusive a razão.

    E é porque o mundo faz sentido, sentido que pode ser conhecido, que a escravatura foi abolida, os enfermos não foram mais jogados no lixo como coisas inúteis, os mendigos foram tratados com enorme dignidade e, a ciência brotou buscando desvendar a “medida, quantidade e peso” de tudo e a beleza do mundo foi expressa em múltiplas formas de arte. Isso não quer dizer que muitas vezes a presença do Sentido (caminho, verdade e vida) entre nós, não tenha sido abandonada e traída, mas até essa traição encontra no próprio sentido revelado, o caminho de seu arrependimento e correção: Existe luz!

    Mostrar pois que essa PRESENÇA amplia o conhecimento e a compreensão ético-moral (e , portanto, questionar a laicidade entendida como censura da dimensão transcendente da vida, impedimento radical de sua voz e incidência no destino humano, inclusive público) não é apenas fazer uma proposta. É reconhecer o que efetivamente já aconteceu. É ir atrás das raízes dos frutos que ainda nos alimentam e das flores que embelezam nossa vida! É propor que nos conheçamos e nos reconheçamos melhor como civilização, sem a esquizofrenia do apagamento fantasioso da própria memória.

    Ou seja: as sociedades ocidentais estão cuspindo no prato em que comeram e estão , numa postura suicida, cortando as raízes que lhe dão sustento. E isso já faz mais de 500 anos! Mas é claro que primeiro precisam difamar e caluniar essas raízes, para facilitar o seu corte: quem não vai querer apoiar o corte de coisas tão “opressivas, injustas e desumanas”?

    E assim é que o ser humano contemporâneo, em grande parte, vive de censurar o passado que mal conhece e habitar um futuro que tem a pretensão de construir, mas que muitas vezes, se revela velho com enorme facilidade. E assim perde a grande benção que é habitar o presente e a PRESENÇA, única garantia de construtividade futura realmente consistente, única realidade capaz de irmanar as pessoas e de gerar energia para suportar a dor, mudando o que for possível, para que haja menos dor.

    “Não esqueçam a densidade do instante”, esse convite e alerta do velho Giussani nunca me abandonou. Muita gente tem medo deste convite, pensando que ele traz a ameaça de uma teocracia ou de uma cristandade forçada. Mas o bonito é que essa densidade da vida muitas vezes é percebida tanto pelo pagão Aristóteles, como por aquele que decretou a morte de Deus (Nieztche) embora tenha rezado com essas palavras “A Ti, das profundezas do meu coração,tenho dedicado altares festivos, para que em cada momento tua voz me possa chamar!”.

    Os seguidores do Verbo Encarnado tem, por isso, inúmeras pontes de diálogo com o mundo, pois este mundo está cheio das suas sementes (e até alguns frutos) pois não se trata de uma realidade dos crentes apenas, é uma realidade e um tesouro do coração humano . E como você gosta de lembrar, ecoando a metáfora bíblica que Ratzinger utilizou sabiamente, a gente muitas vezes, “apenas” faz um discreto mas incisivo corte na carne do figo bravo e, de dentro dele mesmo virá todo o sabor, toda a potencialidade que ali já estava.

    Essa é uma potência do humano. Na medida em que dedicando grande atenção ao real, consegue perceber nele a dimensão do seu mistério transcendente (ainda que não consiga nomeá-lo, e afinal Ele mesmo se recusou um nome no monte de Sinai) a inteligência humana pode sempre se surpreender, se espantar com a novidade inesgotável do real e comunica-la ao mundo, filosoficamente, artisticamente, ritualmente…etc.

    Ainda que para isso, muitas vezes precise se afastar do tumulto e das babéis artificiais (inclusive do seu próprio tumulto interior), para ir se encontrando com o cerne das coisas, desacostumar o olhar viciado, banhar-se na fonte fresca da realidade. Se o artista tem uma missão no mundo, creio que seja essa: renovar olhares e provocar espantos.

    Então, quem não conhece a proposta de renovação literária que vem surgindo do seu trabalho, professor, pode superficial e levianamente julgar: “aprender com os clássicos? mas que coisa mofada!”
    Mas é exatamente o oposto: trata-se de evitar o mofo que toma conta de nossas pobres ideias todas as vezes que elas não se alimentam do real. O encontro com o real é a condição mesma da novidade, pois na sua profundidade habita uma perenidade sempre jovem. Amputar-se disso, é ser como um galho cortado da árvore que logo murcha , mofa e seca, infecundo.

    Só que isso é mais que literatura: é um modo de viver.
    Oxalá haja sempre mais, uma literatura que faça viver!

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  3. 31 dezembro, 2015 @ 11:19 Luciene de Morais

    “…procura incessantemente uma síntese dialética íntima…”. É isso.

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  4. 30 janeiro, 2016 @ 17:05 Marina N.

    Embora tenha lido este texto para achar modos de disciplinar minha escrita, acabei achando um tesouro muito maior do que eu poderia imaginar. Afinal, que outra razão existe para uma mente dispera que não seja uma alma que não sabe se encerrar em si mesma? Não por acaso, pouco tempo consigo dedicar à oração e muito me custa entrar no meu “castelo interior”. Não importa quantos grandes santos exortem à solidão do rezar, embora entendesse o que eles dizem, a idéia nunca conseguiu germinar em mim. Que grande revelação foi ler que “o escritor deve estar pronto a enfrentar dúvidas e, muitas vezes, desprezar certos confortos, certos lenitivos”. De fato, as distrações – vergonhosamente inúmeras! – e a resistência em estar sozinha só poderiam significar que estou fugindo de algo. Que grande dor ou incerteza é essa que inconscientemente me barra na entrada do meu próprio coração? Isso requer um novo nível de exame da minha consciência. Ainda mais revelador, e também consolador, foi perceber que Deus, em sua perfeição, fez da solidão – palavra que evoca tédio, medo, desperdício de tempo – algo tão simples, mas tão cheio de inefáveis riquezas, quando o texto diz que nela se encontram “as alternativas de uma vida verdadeiramente dinâmica”. A grande aventura que é a vida interior!

    Esta meditação que o senhor fez a respeito da solidão e do estoicismo abriram meus olhos para algo maior do que a própria escrita. Se a partir de hoje eu puder me disciplinar a suportar a mim mesma no silêncio, quanto não lucrará esse ofício de narrar? Ainda melhor, quanto não lucrará a minha vida de oração, esta que nos leva para a Eternidade? Agradeço a Deus por ter o privilégio de ler seus textos, professor. Sem dúvida, este fez cair a escama dos olhos e me salvou a vida.

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