Walter Pater e suas lições de estilo

No ensaio “Estilo”, publicado em 1888, Walter Pater tece observações úteis para quem deseja se tornar escritor. E o faz no seu tom “sereno e contemplativo”, como definiu G. K. Chesterton. Mas há trechos marcados por certo contorcionismo, por frivolidades ou amaneiramentos, facilmente superáveis para o leitor criterioso, armadilhas derivadas do esteticismo de Pater, a respeito do qual Roger Kimball faz ótima análise no ensaio “Arte versus Esteticismo”, presente na coletânea Experimentos contra a realidade, recentemente traduzida.

Lendo “Estilo”, percebemos que Pater não se deixou levar, de forma integral, pela ideia que defendeu em O Renascimento — a de que “ver um objeto como ele realmente é consiste em conhecer a impressão que alguém tem dele como ela realmente é, discriminá-la, compreendê-la distintamente”. Essa ideia retorna em “Estilo”, mas desdobrada numa série de reflexões que aprofundam seu sentido.

Walter Pater

A obra boa, a obra autêntica, será a que recusar o superficial, o momentâneo, o passageiro, a avidez por novidades, o ambíguo, o falatório.

Na opinião de Pater, um escritor se torna artista quando seu propósito não é apenas transcrever o mundo ou um fato, mas, criar a transcrição do sentido que ele tem desse fato. Assim, a arte literária é a “representação do fato conectado à alma, a representação de uma personalidade específica nas suas preferências, na sua vontade, no seu poder”.

Bastariam essas colocações para distanciar Pater do realismo vulgar, hoje em vigor, que trata a literatura como mera fotocópia da realidade. Mas são reflexões que, por outro lado, ainda o prendem ao subjetivismo exagerado, que acorrentam o conhecimento da realidade à “impressão” que temos dela.

Pater começa a superar seu solipsismo ao esclarecer o que é uma boa obra literária. “Ela será boa na exata proporção em que sua representação do estado de alma do escritor, do sentido que ele dá ao real, seja verdadeira”, afirma. Entramos aqui, portanto, na questão da autenticidade da obra literária, isto é, da obra que não é construída apenas a partir de sensações ou impressões, mas por certezas; obra que não é apenas devaneio solipsista, mas que trata a realidade como “matéria complexa, rica e plena”. Linha a linha, percebemos seu pensamento: a obra boa, a obra autêntica, será a que recusar o superficial, o momentâneo, o passageiro, a avidez por novidades, o ambíguo, o falatório.

Se Pater estivesse interessado em apenas evidenciar a necessidade dos escritores terem boas “impressões” — e comunicarem essas “impressões” sem nenhuma preocupação com a inteligibilidade do texto —, não salientaria, como faz de maneira incansável, a importância da erudição, da autocrítica e de compreender as regras da língua, verdadeiras “oportunidades” de criação — e não “limitações”, como muitos pensam hoje. Trata-se, portanto, de ter consciência das palavras — e de escolher temas “complexos, ricos e plenos”.

“Inteligência negligente”

Walter Pater entende o estilo como uma forma de “ascese”, de “autocontrole”, na qual o escritor mostra-se econômico ao usar os meios de que dispõe, recusando os ornamentos, a superficialidade. Eliminar o supérfluo — é a ordem que ressoa a cada página —, isto é, todos os elementos que, por meio de sua “força narcótica”, potencializem o que ele chama de “inteligência negligente”.

Citando Montaigne, para quem não se deve oferecer didatismos aos leitores, Pater afirma que o leitor sente “satisfação estética no rigor frugal que tira o máximo proveito de uma palavra e no relevo preciso de cada oração”. Ele elogia o “tato para a omissão” — e condena as receitas fáceis da retórica, como os paralelismos, as repetições, o estilo alusivo em geral.

Para Walter Pater, a literatura é “um refúgio, um refúgio enclausurado frente a uma certa vulgaridade do mundo real”. Exatamente por esse motivo, ele se opõe à degradação da linguagem, insistindo para que não a usemos de forma descuidada, mesmo quando utilizamos os elementos mais comuns da fala.



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